O passado sempre chega primeiro, como aquela chuva fina que batia no telhado da casa dos meus pais. Era um tempo em que tudo parecia caber dentro de uma xícara de café quente e de um pão de milho recém-saído do forno. Eu acordava cedo só para sentir o cheiro da manhã.
Essas lembranças voltam agora, no presente, enquanto observo a chuva escorrer pela vidraça do meu quarto. O frio que entra pelas frestas não é o mesmo, mas provoca a mesma vontade de recolhimento. A vida adulta me ensinou que o tempo corre mais rápido do que deveria, e que a saudade não é um peso — é um mapa. Cada gota que desliza no vidro parece desenhar o caminho que percorri até aqui.
E então penso no futuro. Não como algo distante, mas como uma continuação natural desse ciclo. Imagino um dia em que outras mãos, talvez pequenas como as minhas foram, despertem com o cheiro de um café que eu mesmo preparei. Imagino contar histórias de manhãs nebulosas, de casas simples e de amores que aqueciam mais do que qualquer fogão. Talvez o futuro seja isso: a chance de transformar lembranças em herança, de fazer com que aquilo que me formou também ilumine alguém que ainda nem chegou.
O passado me molda, o presente me desperta, e o futuro me chama — tudo isso enquanto a chuva, teimosa, continua a cair. E eu entendo, enfim, que a vida é feita desse movimento contínuo: lembrar, sentir, imaginar. Um ciclo silencioso, mas cheio de sentido.
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