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Por que prefiro Pelé

 

Sou de uma geração que viu o futebol arte nascer e crescer antes que a tecnologia o engolisse. Vi o jogo quando ainda era jogo — quando a bola era protagonista e não um dado estatístico, quando o drible era gesto espontâneo e não coreografia ensaiada. Naquele tempo, a lógica era simples e sábia: a bola deve correr mais que o jogador. E corria. Corria leve, obediente, guiada por pés que pareciam conversar com ela.

Não se precisava olhar para baixo para dominá-la; bastava senti-la. Técnica era tato, era intimidade. O atleta sabia onde estava no campo como quem conhece a própria casa no escuro. Havia espaço para a invenção, para o improviso, para o lampejo que ninguém previa — nem o próprio autor.

Hoje, não nego, há grandes jogadores. Há talento, há genialidade, há Messi — um maestro moderno, dono de uma visão espacial quase sobrenatural. Mas há também um futebol moldado em laboratório, milimetricamente planejado, onde cada passo, cada metro quadrado, cada movimento parece parte de um tabuleiro de xadrez. A televisão virou videogame; o campo, um mapa tático. Evolução? Sim. Mas evolução que cobra seu preço: a descaracterização daquele futebol que enchia os olhos.

Eu vi Pelé. Vi Garrincha. Vi Yashin, Eusébio, e tantos outros que desfilavam como artistas num palco de grama. Vi o futebol que não precisava de replay para ser eterno.

E vi Messi também — ao vivo. Um gênio, sem dúvida. Mas Pelé… Pelé é outra coisa. Não é questão de nacionalidade, de patriotismo, de nostalgia. É questão de dimensão. Pelé não cabe em comparação. Ele é o ponto fora da curva, o antes e o depois, o jogador que não apenas jogou: reinventou o jogo.

Por isso prefiro Pelé. Porque o vi fazer o impossível parecer natural. Porque o vi transformar futebol em arte. Porque, no fundo, comparar Messi e Pelé é como comparar eras que não se tocam — e eu tive o privilégio de viver as duas.

E, tendo vivido, digo sem hesitar: impossível compará-los.

 

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