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Saudação a João Fonseca

 

Sempre acreditei que o tênis era um território reservado aos ricos: uniformes alvíssimos, gestos contidos, clubes onde o silêncio valia mais que qualquer aplauso. Para nós, que vivíamos do lado de fora da cerca, restava a fresta na parede — aquela pequena abertura por onde víamos a bola amarela riscar o ar como um cometa, levantar poeira do saibro e desaparecer no brilho do sol. Era um espetáculo distante, quase proibido, habitado por figuras de postura nobre, como se o esporte fosse um salão aristocrático ao ar livre.
Mas o tempo, esse grande desarrumador de certezas, tratou de mexer nas peças. A sociedade mudou, os muros ficaram mais baixos, e um dia surgiu um menino magricela lá do Sul, de sorriso fácil e cabelos desgrenhados. Guga — assim, simples, íntimo, como se já fosse da família. Ele fez o Brasil descobrir que também podia vibrar com uma raquete na mão. Transformou o país em arquibancada, em torcida, em sonho. O tênis deixou de ser exclusividade dos abastados e virou assunto de mesa de bar, de sala de aula, de esquina. A mídia percebeu, claro — e a publicidade, sempre atenta ao cheiro de oportunidade, tratou de amplificar o fenômeno.
Mas hoje, o que quero registrar é outra história. A história de um novo menino, João Fonseca. Ele entrou em quadra diante de Djokovic — o gigante, o mito, o número um — e não se encolheu. Pelo contrário: cresceu. Jogou como quem sabe que o impossível é apenas uma palavra preguiçosa. E, de repente, o país inteiro prendeu a respiração. O grito ficou preso na garganta, a lágrima ameaçou escapar, e cada brasileiro, por um instante, acreditou de novo que é possível sonhar grande.
João não venceu apenas pontos. Ele venceu o ceticismo, a descrença, a mania nacional de achar que tudo dá errado. Fez o Brasil lembrar que ainda existe espaço para o ufanismo bonito — aquele que não exclui, que não humilha, que não se impõe. O ufanismo que une. Que faz o país inteiro torcer como se fosse uma só pessoa, uma só voz, um só coração.
E ontem, como se o destino tivesse decidido empurrá-lo mais um passo adiante, veio outra vitória — firme, madura, quase simbólica.
Por isso, esta é uma saudação. Uma reverência. Um agradecimento.
“João Fonseca, obrigado por nos devolver o espanto. 
Obrigado por nos lembrar que o sonho ainda mora aqui, dentro de nós.”
E que, às vezes, tudo o que precisamos é de uma bola amarela cruzando o ar para acreditar de novo.

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