Por muitos anos, foi o elo entre
Porto Alegre e o litoral norte. Antiga rota de tropeiros e carroças, a velha RS‑17
carregava histórias antes mesmo de ter nome. Depois
virou ERS‑030, mas para quem a percorreu, continuou sendo
simplesmente a Estrada Velha. Perdeu protagonismo com a construção da Freeway,
é verdade, mas nunca perdeu caráter.
Foi por ali que cheguei ao
litoral inúmeras vezes, conduzindo meu Chevette “Tubarão”1,
fiel companheiro de aventuras. E como havia aventuras. Chuvas torrenciais
transformavam o caminho em desafio, buracos surgiam como armadilhas, e todas as
mazelas que só quem viajou por aquela estrada conhece. Mas nem tudo era ruim —
longe disso.
A parada em Santo Antônio da
Patrulha era um ritual que ninguém ousava quebrar. Desde os tempos da
colonização açoriana, a cidade se tornou ponto de descanso e abastecimento, e
ainda guarda esse espírito. Ali, cumpria-se o velho costume: aliviar a bexiga,
alongar o esqueleto e, sobretudo, render-se aos sabores que resumiam a alma da
região. Os sonhos quentes de massa batida, herança direta dos açorianos; a
rapadura quebradiça; e um gole da cachaça patrulhense, produzida desde os
primeiros engenhos coloniais. Essa tríade simples e poderosa dava sentido à
viagem.
Chegar a Torres exigia paciência:
quatro, cinco horas de estrada, dependendo da boa vontade do tempo e do
trânsito. Mas a natureza exuberante compensava. Campos, matas, horizontes
largos — tudo parecia maior, mais vivo. Dentro do carro, a algazarra dos filhos
pequenos completava o cenário. Muitos desses passeios eram autênticos bate‑e‑volta:
sair na sexta, voltar no domingo, como quem tenta esticar o fim de semana com
as próprias mãos.
E havia algo curioso naqueles
tempos: pela demora da viagem, era normal sair de casa às cinco da manhã. A
madrugada ainda fresca, o carro carregado, a expectativa do mar. Era aventura,
pura e simples. Hoje, a velocidade no asfalto não nos permite nem ver a
paisagem. A pressa engole o caminho.
Porém ontem, cruzei por lá.
E a Estrada Velha, mesmo
discreta, ainda guarda ecos de tudo o que foi.
¹ Os faróis redondos e a grade estreita criavam uma
aparência agressiva, comparada à cabeça de um tubarão.
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