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A Goteira

 

O problema começou com um único pingo. Uma gota trêmula, que escorria pelo telhado de zinco da velha casa de madeira como se carregasse um presságio sombrio. No início, eu até suportava aquele tic… tic… tic… ritmado, que nas noites chuvosas de inverno parecia compor uma melodia triste para meus pensamentos mais profundos. Era quase poético — até o instante em que deixou de ser.
Porque infiltração, meu caro, é como visita inconveniente. Aquele primeiro sinal, que eu até tratava com certa paciência, logo convocou reforços. E vieram todos. Uma verdadeira procissão de gotas, cada qual revelando sua própria maneira de cair: a que despenca torta, a que desaba com violência, a que cai preguiçosa — como se soubessem que a escuridão amplifica qualquer desespero.
O assoalho, coitado, recebia resignado aquela torrente doméstica, como quem diz: “É a vida, fazer o quê”. E eu ali, deitado, ouvindo o tilintar das gotas ecoar pelas entranhas da casa — e pelas minhas também. Às vezes o som parecia um sussurro, quase uma tentativa de consolo. Em outras, transformava-se numa tortura lenta e precisa: tic… tic… tic… cada impacto marcando o ritmo das minhas angústias, como se a casa inteira tivesse decidido lamentar comigo, gota por gota.
E pensar que tudo começava com aquele insignificante fio d’água, escorrendo pelo chão como quem tenta passar despercebido. Mas bastava unir-se a outros para virar poça, depois filete, depois riacho, até finalmente encontrar o caminho para o rio — e dali para o oceano. Uma epopeia líquida que começava no meu telhado e terminava no Atlântico, como se minha humilde casa fosse o berço secreto das águas do mundo.
No fim, aprendi a coexistir com a goteira. Ela se tornou presença constante, sombra íntima, quase uma testemunha silenciosa das minhas noites de inverno. Só não paga aluguel, não ajuda na faxina e ainda insiste em transformar o assoalho num parque aquático improvisado. Mas quem sou eu para discutir com a força da natureza? Afinal, se até minhas angústias escorrem pelo telhado, talvez essa teimosia líquida só esteja tentando me lembrar que tudo na vida — até os problemas — acaba encontrando seu caminho para o oceano.
 

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