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A Vírgula

 

Usada para listar coisas, ações ou características que possuem a mesma função sintática, é proibida quando interrompe a conexão natural entre os termos da frase. Até aqui tudo certo — definições gramaticais nos compêndios escolares e dicionários. Mas o que pretendo escrever é sobre os efeitos desse pequeno sinal de pontuação.
Na escola eu era um aluno mediano — não por falta de esforço, mas porque a vírgula já me perseguia desde cedo. Ler e escrever não eram minhas maiores habilidades, embora eu tivesse uma fome literária digna de personagem de romance. Gostava de livros, de folhear páginas, de cheirar papel (sim, eu era esse tipo de criança). Isso acabou me levando ao curso técnico de artes gráficas: virei tipógrafo, linotipista, profissional da palavra — mas apenas da palavra impressa, porque a escrita, essa danada, continuava me olhando torto.
Mas vamos em frente. São tantas as vezes em que nos deparamos com frases construídas em ritmo acelerado, onde o atropelo da fala conjugada à escrita cria situações hilárias ou verdadeiras aberrações literárias. Esse pequeno risco, traço ou linha, quando mal posicionado, transforma-se em nosso algoz. 
Tomemos o exemplo: Ritmo rápido (sem vírgula): “O médico disse que ele tinha apenas seis meses de vida e o paciente disse que não podia pagar a consulta então o médico deu mais seis meses.” Ritmo de anedota (com vírgulas estratégicas): “O médico disse que ele tinha apenas seis meses de vida. O paciente, desesperado, disse que não podia pagar a consulta. O médico, então, deu mais seis meses.”
E assim sigo escrevendo: primeiro deixo o texto correr solto, livre como pensamento recémnascido. As ideias fluem conforme o cotidiano e, ao final, quando a escrita enfim adquire ritmo com as devidas vírgulas, essas pequenas regentes da sintaxe percebo que a arte de escrever não é tão difícil assim; basta ser fiel à vírgula.

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