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Ausência

 

Dizem que ele sumiu. Ninguém sabe ao certo quando começou o desaparecimento, mas alguns analistas em convivência — garantem que foi logo depois de perceber que suas mensagens no grupo recebiam a mesma atenção dedicada aos termos de uso do WhatsApp: absolutamente nenhuma
Ele, pobre criatura otimista, tentou interpretar o fenômeno. Imaginou que o mundo estivesse ocupado demais, ou que o sinal tivesse caído, ou que todos os seus amigos tivessem sumido. Mas não: estavam todos lá, vivíssimos, hiperativos, enviando figurinhas, memes reciclados, vídeos de bom dia com flores animadas e correntes motivacionais que prometem riqueza se você encaminhar para 12 pessoas. Só não estavam… com ele.
A ausência, portanto, não era um acidente.
Com o tempo, ele percebeu que o silêncio digital tem uma habilidade extraordinária: não apenas isola, mas também apaga. A cada dia sem resposta, sentia-se como um arquivo sendo arrastado para a lixeira — e sem direito a backup.
Mas eis que, num raro momento, alguém respondeu. Uma curtida, um emoji, um “kkkk”. Ele quase chorou. Sentiu-se acolhido, valorizado, lembrado — como se tivesse voltado a existir depois de um período sabático involuntário.
E foi aí que ele concluiu, com sua ironia habitual, que a ausência é uma entidade caprichosa: só deixa de existir quando alguém, em algum canto, resolve lembrar que você existe. A partir desse instante, ele reaparece, renasce, ressurge — não por mérito próprio, mas porque finalmente ganhou o privilégio de ser notado.

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