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Bilhete Premiado

 

Sempre desconfiei dessa expressão “jogo de azar”. Há algo de ambíguo nela, quase irônico. Afinal, se é jogo, deveria ser de sorte. Quando compro um bilhete, espero o mínimo: que esteja premiado. Não é otimismo, é lógica. Se eu pago por um pedaço de papel colorido, quero que ele venha com algum brilho, nem que seja um prêmio de consolação, tipo “parabéns, você ganhou o direito de continuar acreditando”.
Mas o bilhete, esse traidor silencioso, quase sempre devolve apenas um “tente outra vez”, que é a forma educada de dizer “perdeu, campeão”.
O problema é que essa expectativa inocente esconde um outro lado, bem menos romântico. O jogo tem um charme perigoso. Ele se apresenta como quem não quer nada, piscando para você com aquele olhar de “vem, é rapidinho”. E aí entram os apostadores — figuras fascinantes, quase personagens de novela. Alguns são estrategistas, outros são poetas da esperança, mas a maioria é formada por otimistas profissionais, gente que acredita que a vida está prestes a virar uma festa, basta acertar os números, ou seja lá o que for.
Já vi muita gente — algumas bem próximas — se iludir com pequenas quantias ganhas. “Se eu ganhei cinquenta hoje, posso ganhar cem amanhã, duzentos depois… daqui a pouco estou milionário.” É uma matemática emocional, totalmente desconectada da realidade, mas incrivelmente convincente para quem está com o coração acelerado.
O jogo promete mundos e fundos, mas entrega boletos e arrependimentos. O sujeito, animado com o lucro inicial, resolve apostar o que ganhou. Depois aposta o que tinha antes de ganhar. Depois aposta o que não tem, mas acredita que terá. É uma progressão geométrica rumo ao caos.
É curioso como o jogo, que deveria ser entretenimento, vira armadilha. A sorte, tão celebrada, transforma-se em miragem. E talvez seja isso que explica a controvérsia do tal “jogo de azar”.

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