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Cartas Marcadas

 

Há dias em que, ao escrever, tenho a sensação de remar contra a maré. A palavra não flui, o pensamento tropeça, e qualquer tentativa de organizar o mundo no papel nasce com um gosto de desalinho. Talvez seja reflexo da minha frustração ao ver a seleção brasileira fora das préclassificadas para a próxima fase da Copa do Mundo; talvez seja apenas a velha incapacidade de aceitar o óbvio quando ele se impõe sem pedir licença.

Vivemos num mundo automatizado, onde quase todas as nossas escolhas — com raras exceções, se é que ainda existem — passam por filtros invisíveis, algoritmos silenciosos, estruturas que moldam nosso cotidiano sem pedir licença. Nesse labirinto de possibilidades préprogramadas, minha desconfiança cresce como erva daninha. E, num impulso irracional, me encontro tentando procurar chifre em cabeça de cavalo, como se a lógica pudesse justificar o incômodo que me atravessa.

Provavelmente não encontrarei nada. Mas o convencimento íntimo — essa teimosia que insiste em se manter de pé mesmo quando o chão treme — não me permite outra forma de expressar o desencanto. Talvez seja apenas o lamento de ver, nesta reta final da competição, quatro campeões do mundo disputando um momento histórico enquanto o meu Brasil, tão estrelado, tão cheio de glórias, permanece ausente da festa.

É nessas horas que o torcedor pensa o que não deveria pensar. Que o coração cochicha o que a razão tenta desmentir. E eu, aqui, entre o desalento e a esperança, deixo escapar o pensamento que me ronda desde cedo:

Isso tudo tem cara de jogo de cartas marcadas.

 

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