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Ela Voltou

 

A enchente retorna, devastadora, deixando danos irreparáveis e enclausurando comunidades inteiras. O Sul novamente submerso, famílias ilhadas, cidades paralisadas — E nós, espectadores de uma tragédia repetida, retomamos o velho ritual: indignação, acusações, promessas, discursos.
As críticas surgem com tom de terra arrasada, como se tudo fosse culpa exclusiva da política. Sim, há omissão, negligência e falta de planejamento. Há gestores que tratam rios como ornamento e só lembram da Defesa Civil quando a água invade o gabinete. Mas reduzir tudo à incompetência pública é confortável demais — e nos absolve.
A verdade incômoda é outra: o planeta está cobrando a conta.
Nenhum órgão meteorológico controla uma atmosfera em desequilíbrio. Nenhum radar impede chuvas torrenciais. Nenhuma barragem segura a fúria de encostas desmatadas e rios estrangulados por ocupações irresponsáveis.
Seguimos repetindo o erro de tratar a natureza como inimiga, quando ela apenas responde ao que fizemos com ela. Precisamos de políticas sérias, planejamento urbano que respeite rios, reflorestamento e educação ambiental real — não slogans.
Mas também precisamos abandonar a fantasia de que é possível controlar a natureza como se fosse uma máquina com botão de desligar. Não é. Nunca foi.
A enchente volta porque o ciclo volta — e volta porque insistimos em ignorar que fazemos parte dele.
Até a próxima enchente. Porque, do jeito que estamos, ela não é possibilidade. É certeza.

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