Apareceu do nada, numa tarde
cinzenta de outono. Chovia fino, quando vi um pequeno cão olhando
através das grades do portão,
tremendo de frio e medo, um fiapinho de vida encharcado.
Era pequeno, frágil, agitado.
Pelo jeito como surgiu, dava pra ver que buscava abrigo e comida. Talvez o
instinto tenha guiado seus passos até ali, porque naquela casa encontraria
exatamente o que precisava: afeto.
Os dias passaram, e lá estava,
todo santo dia, no portão. Abanava aquela penugem de rabo como quem diz
“voltei”. Ganhou carinho, comida e um lugar. Nome, por enquanto, não tinha —
era só presença, dessas que a vida coloca no nosso caminho sem explicação.
Até que meu neto, com a
simplicidade bonita das crianças, resolveu adotá‑la. Olhou pra ela, olhou pro céu daquela noite e disse: Vai ser “Lua.” Talvez porque o céu estava tão claro.
“Lua” cresceu. Os meses viraram
anos, e ela se acostumou à nossa casa de praia. Mas existe um problema: de
tempos em tempos, precisamos voltar pra cidade. E “Lua” fica. Vira moradora do
bairro, acolhida por uns, observada por outros, mas sempre envolta num
mistério. A ausência dela pesa. A casa fica mais silenciosa, como se faltasse
um pedaço.
Mesmo assim, a amizade não se
perde. Cada retorno é uma festa. “Lua” corre, pula, gira, se encosta nas nossas
pernas como quem reencontra o que é seu. E é aí que sempre me surpreendo — não
é que ela sorri. E não é exagero: ela sorri mesmo. Fecha um pouco os olhos,
abre a boca, balança o corpo inteiro. É alegria pura, dessas que não se
inventam.
E o guarda‑chuva? Entra
na história porque, curiosamente, quase sempre
chove quando chegamos. E lá estou eu, descendo do carro com o
guarda‑chuva
na mão, e “Lua” vem correndo, molhando tudo, como quem diz: “Finalmente!”. Virou tradição: Eu,
meu cão e o guarda‑chuva, reencontrando a casa, o
cheiro do mar e o que realmente importa.
No fim das contas, somos isso:
uma amizade que não precisa de explicação — só de presença.
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