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Ilhas Malvinas ou Falklands?

 

Hoje, ao escolher o tema da minha crônica diária, deparei-me com um daqueles assuntos que parecem escolhidos pelo destino: Argentina e Inglaterra na semifinal da Copa do Mundo de 2026. A coincidência é irresistível, sobretudo porque esses dois países carregam uma disputa secular cuja legitimidade permanece envolta em interpretações, lacunas e narrativas que mudam conforme o narrador.
Desde 1592, acumulam-se desembarques, expulsões, bandeiras hasteadas e retiradas, tudo embalado por Bulas Papais, Tratado de Tordesilhas e leituras convenientes da história. No centro de tudo, uma dúvida que nunca se dissipou: afinal, de quem são as ilhas? Documentos e versões existem aos montes — consenso, não.
Em 1833, o Reino Unido expulsou o governador e a guarnição argentina, assumindo o controle das Malvinas — hoje um dos 14 Territórios Ultramarinos Britânicos. Em termos bem brasileiros, foi “na mão grande”. Mas nem isso encerrou a questão: para muitos historiadores, a legitimidade britânica segue contestada; para outros, é assunto resolvido. A dúvida, porém, persiste.
Mas eu quero falar de futebol. Porque, se há campo onde essa rivalidade se expressa com mais intensidade que o Atlântico Sul, é o gramado. Ali também não faltam divergências: o gol de mão de Maradona em 1986 — a famosa “Mano de Dios” — e a acusação argentina de favorecimento inglês em 1966, quando a Inglaterra jogava em casa e a arbitragem parecia mais britânica que o chá das cinco.
Essas histórias, repetidas como mantra, não resolvem nada. Pelo contrário: alimentam a chama, acirram a disputa e transformam cada jogo em um capítulo extra da velha questão territorial.
E agora, em 2026, Argentina e Inglaterra se reencontram. Não para decidir soberania, nem para reescrever mapas, mas para disputar algo que, para muitos, vale tanto quanto território: uma vaga na final da Copa do Mundo.
No fim das contas, talvez seja isso que o futebol faz de melhor — transformar conflitos históricos em 90 minutos de drama, paixão e catarse coletiva. As Malvinas continuam onde sempre estiveram. A dúvida sobre sua posse também. A rivalidade, nem se fala. Mas o futebol, esse sim, muda tudo.

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