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Incredulidade

 


Há temas que, de tão revisitados, parecem já ter perdido o brilho. A incredulidade é um deles. Essa velha conhecida que nos acompanha desde que o mundo é mundo, sempre pronta para se manifestar quando algo não bate, não encaixa, não convence. Como reza a falácia popular, “bate-se o martelo”, mas a verdade exposta continua a parecer torta, exagerada, suspeita.
E então, quase sem que percebamos, aquela frase shakespeariana — há algo de podre no reino da Dinamarca — atravessa o pensamento como um reflexo condicionado, sinal de que a incredulidade ainda não nos abandona.
O imponderável acontece. E quando acontece, desmonta nossas certezas com a delicadeza de um vendaval. Ficamos ali, meio zonzos, olhando para fatos que saltam aos olhos, que nos deixam pasmos, incrédulos, como quem tenta decifrar um truque de mágica.
E nesta Copa do Mundo, a incredulidade resolveu fazer morada. Não é uma visita ocasional; é hóspede permanente. A cada rodada, a cada apito, a cada decisão que parece contrariar o óbvio, ela se instala no sofá ao nosso lado, cruza as pernas e pergunta: tem certeza de que viu o que acha que viu?
A luta entre Sansão e Golias — ou melhor, entre seleções que deveriam ser gigantes e acabam tropeçando em suas próprias sombras — se repete com uma frequência desconcertante. Erros que não se explicam. Intenções que não se revelam. Desatenções que não se justificam. E aquele incômodo que cresce, silencioso, como se algo gritante estivesse sendo ignorado por quem deveria ouvir.
É aí que a pergunta surge, atrevida, quase proibida:
Será que já existe um vencedor pré-determinado para este mundial?
Não é uma acusação. É um desabafo. Uma tentativa de dar forma ao desconforto que se acumula quando o futebol — esse território do imprevisível — começa a parecer previsível demais. Quando a lógica se dobra, quando o roteiro parece escrito, quando a surpresa deixa de ser surpresa e vira suspeita.
Mas talvez a incredulidade seja apenas isso: o espelho da nossa paixão. O futebol mexe com o que temos de mais visceral. E quando algo não bate, não encaixa, não convence, o coração reage antes da razão. A Copa segue, os jogos continuam, e nós seguimos tentando entender se estamos diante de um milagre esportivo… ou apenas de mais um capítulo da velha e teimosa incredulidade humana.

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