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O Babaca

 


Ontem eu testemunhei um espetáculo raro: a performance completa de um babaca em seu habitat natural.
Começou cedo. Acordou já achando que o universo tinha decidido sabotá-lo. O despertador tocou no horário exato, como sempre, mas ele interpretou aquilo como um ataque pessoal.
Levantou-se com a convicção de que tudo estava errado — inclusive coisas que estavam perfeitamente certas. No trânsito, buzinou para um senhor que dirigia com a calma de quem acredita que o tempo é um conceito opcional.
No mercado, reclamou da fila. Uma fila de cinco pessoas, veja bem. Uma tragédia. Uma calamidade. Uma afronta à própria existência. Fez aquela cara de “isso aqui é um absurdo”, como se fosse um fiscal da eficiência humana. E soltou o clássico suspiro dramático — aquele que não muda nada, mas serve para avisar ao mundo que ele sofre de uma condição rara chamada impaciência aguda.
Em casa, estava tão econômico nas palavras, distribuindo respostas curtas como quem entrega panfletos: sem olhar, sem pensar, sem graça.
E aí, já à noite, caiu a ficha. Percebeu que o problema não era o trânsito, nem a fila, nem o senhor indeciso, nem o despertador. O problema era ele — ele e sua capacidade extraordinária de transformar pequenos incômodos em grandes dramas.
Então riu.
Porque, no fim das contas, ninguém está livre de um dia de babaquice. A diferença é que alguns fazem disso um estilo de vida… e outros, como ele ontem, só passam por um surto temporário e depois voltam ao modo “pessoa civilizada”.

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