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Os Jurássicos

  

O reencontro começou do jeito que as melhores histórias começam: por acaso. Dois setentões, sobreviventes das curvas do destino, esbarraram-se numa esquina qualquer. Um reconheceu o outro, e pronto: estava armado o início da saga.

O café entrou em cena como testemunha ocular. Entre goles, risadas e aquele ritual de ajustar óculos para enxergar melhor o passado, lembraram as aventuras do bairro, as peladas de domingo, as serenatas mal ensaiadas e das paixonites que nunca deram certo. E ali, entre uma história e outra, decidiram: “Vamos reunir o resto da tropa.” A tropa, claro, já não era bem tropa — era mais um museu de figuras raras espalhadas pelo mundo.

Cinco décadas tinham passado. Uns se casaram, outros descasaram, alguns mudaram de cidade, outros mudaram de dimensão. A vida tinha feito o que sempre faz: embaralhado tudo. Mas havia algo ainda mais extraordinário nessa ausência prolongada: o mundo tinha virado de cabeça pra baixo.

A velha calculadora virou caixa eletrônico.  O comprovante de pagamento no banco virou aplicativo. O dinheiro agora viajava por fibra óticas invisíveis.

O encontro anual virou tradição. Confraternizam, contam histórias, discutem política, futebol, filosofia, fofocas — tudo no bom sentido, ou quase. Mas o verdadeiro espetáculo acontece nas reuniões online.

Porque, sejamos sinceros: as videochamadas mereciam transmissão ao vivo e comentários de especialistas. Tem o que entra na reunião sem som e passa vinte minutos falando sozinho; tem o que aparece só do nariz pra cima porque não sabe ajustar a câmera; tem o que não consegue clicar no link e liga desesperado pedindo “socorro tecnológico”; tem o que compartilha a tela sem querer e revela cenas indesejáveis e tem o que passa a reunião inteira congelado.

E quando finalmente todos conseguem se conectar, já é quase hora de encerrar. Mas vale cada segundo — porque as gargalhadas são garantidas.

Porém, entre eles, há um que se destaca. Não pela habilidade tecnológica, nem pela memória infalível, nem pela pontualidade (que nunca existiu). Ele se destaca porque assumiu, com orgulho e convicção, o codinome “Dinossauro”.

E ninguém ousa discordar. Afinal, se existe alguém capaz de transformar cada reunião em uma aventura, é o “Dinossauro”, ele é o primeiro a esquecer a senha, o último a entender o tutorial, e o único que consegue travar o computador. Mas também é o que mais ri de si mesmo — e isso o torna o mais festejado da turma.

Os Jurássicos seguem assim: reunindo-se, tropeçando na tecnologia, celebrando a amizade que resistiu ao tempo, às mudanças e às modernidades. São fósseis vivos da alegria, da teimosia e da memória.

E, no fundo, sabem que não importa quantos anos passem, quantas telas travem ou quantos links não funcionem. Porque amizade boa é assim: não envelhece, só cria histórias. E, no caso deles, cria também boas gargalhadas... jurássicas.

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