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Quem Lembra do Trocador?

 

Voltemos aos anos 1960, quando carro era privilégio de poucos e viajar de ônibus era, de fato, viajar. Ir de Ipanema ao Centro de Porto Alegre podia levar duas horas. Para quem não viveu essas aventuras coletivas, vale decifrar o ritual.

A distância era grande, a velocidade modesta e, não raro, o ônibus precisava reabastecer no caminho para completar o trajeto. A ligação entre a longínqua Ponta Grossa e o Centro exigia superar uma série de obstáculos viários, especialmente a subida — ou descida — da Pedra Redonda, que parecia testar a coragem do motor, a fé dos passageiros e a habilidade do motorista em evitar que o ônibus voltasse de ré.

Só depois desse desafio chegávamos ao ponto onde se fazia a troca de ônibus — então chamada de “baldeação” — no D.A.T.C., o Departamento Autônomo de Transportes Coletivo, criado em 1947 e situado no bairro Tristeza.(1)

Os ônibus eram personagens por si só: o Papa-fila (FNM), o Renault, o Available, o Mercedes-Benz. Cada modelo tinha seu barulho, seu jeito de trepidar, sua personalidade mecânica.

Essas viagens eram verdadeiras odisseias urbanas. E, mais do que deslocamentos, o ambiente dentro dos ônibus refletia a diversidade social da época. Homens trajando ternos alinhados, mulheres com perfumes marcantes e vestidos que refletiam a moda daquele período, a algazarra dos colegiais com seus passes estudantis de meia passagem — tudo isso compunha aquele universo coletivo que hoje parece tão distante.

E havia ele, “o trocador”(2), responsável por entregar a ficha colorida correspondente ao trajeto. Ao desembarcar, o passageiro depositava a ficha numa caixa coletora ao lado do motorista, que só então liberava a saída. Um sistema simples, quase artesanal, mas que funcionava.

Viajar naquele tempo era compartilhar histórias, cheiros, risadas e silêncios. Era um deslocamento lento, mas carregado de sentido — uma experiência que combinava necessidade, convivência e o ritmo de uma Porto Alegre que ainda aprendia a crescer.

                                       

(1)                 O bairro Tristeza, localizado em Porto Alegre, tem esse nome por causa de um antigo morador da região do século XIX chamado José da Silva Guimarães, que ficou conhecido pelo apelido de Juca Tristeza.

(2)                 Refere-se ao mesmo profissional responsável por receber passagens e fornecer troco. A palavra "cobrador" destaca a função de cobrança, enquanto "trocador" vem da necessidade de dar o troco em dinheiro aos passageiros.

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