Andamos tão apressados, tão
ocupados em cumprir metas, que esquecemos das pequenas gentilezas — aquelas que
antes costuravam o tecido das relações humanas com pontos firmes e
delicados.
Hoje, conversamos por atalhos. A
fala virou ícone. As palavras, coitadas, foram reduzidas a símbolos que exigem
quase um curso de arqueologia para serem decifrados. Às vezes me sinto diante
de uma escrita cuneiforme moderna, tentando entender o que significa aquele
conjunto de carinhas, corações, foguinhos e mãos que apontam para todos os
lados.
Conversar com os mais jovens,
então, é uma aventura antropológica, quase um exercício de resistência. Eles
falam rápido, digitam mais rápido ainda, e respondem com uma economia de
vocábulos que faria qualquer gramático chorar. Um “kk”, um “blz”, ou pior: um
emoji que você não sabe se significa aprovação, sarcasmo ou pedido de socorro.
E eu fico pensando: estamos
perdendo a capacidade de comunicação verbal ou apenas terceirizando tudo para o
teclado? Porque não é só a fala que está sumindo — é o ritual inteiro. A pausa
antes de responder. O olhar que acompanha a palavra. O gesto que reforça o
sentido. A respiração que marca o ritmo da conversa. Coisas que não cabem em
280 caracteres.
Falar sempre foi mais do que
emitir sons. É construir presença. É existir para além da tela.
Talvez ainda não tenhamos perdido
o dom da fala. E quem sabe, quando o
silêncio das teclas começar a pesar, a gente volte a procurar a voz. A nossa e
a dos outros. Porque, no fim das contas, nenhuma tecnologia substitui o calor
de uma palavra dita no momento certo.
Comentários
Postar um comentário
Agradeço sinceramente pela sua leitura e pela presença neste espaço. Sua participação enriquece o diálogo e contribui para a construção de reflexões mais amplas. Seja sempre bem-vindo.