A cortina, em sua forma mais
simples, é apenas um pedaço de tecido. Um objeto doméstico, discreto, que
cumpre a função prática de separar ambientes, controlar a luz, preservar a
intimidade. Ela não julga, não escolhe lados, não cria conflitos. Apenas delimita.
Fecha o que deve ser fechado, abre quando é preciso abrir. A cortina concreta é
honesta: mostra exatamente o que é — uma fronteira móvel, reversível, que
existe para proteger e organizar.
Mas na sociedade humana, a
cortina ganhou outra natureza. Tornou-se símbolo. Tornou-se arma. Tornou-se
desculpa.
Hoje, ergue-se uma cortina da
discórdia em quase tudo: na política, nos esportes, nas crenças, nos debates
mais banais. Não é feita de tecido, mas de palavras, preconceitos, medos,
desinformação. E ao contrário da cortina real, essa não se abre com um simples
puxar de mãos. Ela se fecha sozinha, se reforça, se torna mais espessa quanto
mais se tenta atravessá-la.
Criamos barreiras para separar o
que consideramos puro do que julgamos impuro. O “nós” do “eles”. O certo do
errado — mesmo quando não sabemos mais o que é certo, nem temos coragem de
admitir que talvez estejamos errados.
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