Pular para o conteúdo principal

Coincidência… ou algo mais

 

Entre as décadas de 1940 e 1960, existiu um personagem chamado Amigo da Onça, criado pelo cartunista Péricles. Ao lembrar dessa figura, vem à mente seu humor satírico, irônico e sempre crítico — mestre em provocar aquela sensação incômoda de “será que isso foi coincidência mesmo?”

E quando observamos certos sorteios — em especial os que envolvem a disputa nacional — é difícil não perceber um sopro desse espírito irônico pairando no ar.

Clássicos regionais, rivalidades históricas, confrontos que parecem escritos por roteiristas… tudo isso alimenta a imaginação.

Tecnicamente, sorteios são eventos aleatórios. 

Mas o cérebro humano não gosta de aleatoriedade pura — ele busca padrões, narrativas, explicações.

Quando o sorteio coloca frente a frente rivais tradicionais, caminhos que parecem “desenhados” para uma final específica, confrontos que inflamam audiência e mídia, a matemática vira coadjuvante e o imaginário popular assume o protagonismo.

Não é que exista fraude — é que o acaso, às vezes, tem um senso de humor peculiar.

O futebol sempre foi mais do que esporte: é drama, é paixão, é narrativa. 

E quando o sorteio entrega um enredo digno de novela, o torcedor naturalmente levanta a sobrancelha. Não acusa, não afirma, não insinua — apenas reconhece que há coincidências que parecem escritas por mãos invisíveis.

E tudo bem sentir essa dúvida leve, quase lúdica. 

Ela faz parte da cultura do futebol, do bar, da resenha, da mesa de boteco.

Coincidência, sorte, azar — talvez um pouco de cada.

Que ganhe quem não vacilar — porque, coincidência ou não, a dúvida continua aí, firme e forte, como sempre… bem mais presente do que a lógica.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Perdão. Peço desculpa, eu errei

  Pedir desculpa sempre me soou como aquele momento em que precisamos admitir que colocamos sal demais na comida: ninguém quer confessar, mas todo mundo percebeu. Em debates acalorados, então, a dificuldade dobra. A gente entra cheio de certezas, argumentos afiados e aquela convicção quase teatral… até perceber que exagerou na dose.   Errar faz parte — é quase um item obrigatório do pacote “ser humano”. O problema é que, quando estamos defendendo nosso ponto de vista com entusiasmo demais, qualquer detalhe vira motivo para levantar a voz, esticar a frase e criar uma divergência que, no fundo, não precisava existir. Depois, olhando com calma, percebemos que algumas palavras saíram tortas, outras vieram fortes demais, e a intenção se perdeu no caminho.   É aí que entra o gesto que quero destacar: o simples, porém poderoso, ato de pedir perdão. Não aquele pedido automático, dito só para encerrar o assunto, mas o sincero, que reconhece que nossas interpretações foram exagera...

São Jorge: guardião das batalhas que nunca cessam

    Desde menino, antes mesmo de entender o peso das palavras ou o sentido das crenças, eu já convivia com a figura imponente de um cavaleiro que parecia vigiar a casa inteira. São Jorge — montado em seu cavalo branco, lança firme, dragão aos pés — era mais do que um santo. Era um guardião silencioso, desses que não precisam falar para que a gente sinta a presença. Na parede da sala, pendurado um pouco torto, vivia um quadro já desbotado pelo tempo. Minha mãe o tratava como relíquia. Ao lado dele, sempre repousava uma palma benta do Domingo de Ramos, guardada com o mesmo cuidado com que se protege um segredo antigo. Ela dizia que aquilo afastava maus olhados, invejas, sombras que às vezes rondam a vida da gente sem pedir licença. E quando o céu escurecia de repente, quando trovões rasgavam o silêncio e os relâmpagos iluminavam nossa casa humilde, lá ia minha mãe — firme, devota, corajosa — fazer sua prece ao guerreiro. Era bonito de ver: enquanto o mundo lá fora parecia ...

O Relógio

Sempre tivemos uma relação pouco amistosa, eu e ele.  Na infância, era o encarregado de me arrancar da cama para a escola. Nos dias em que alguma moléstia infantil me derrubava, lá estava ele marcando com precisão o horário dos remédios — aqueles de sabor salobro que pareciam castigo. Na adolescência, tivemos alguns momentos de trégua. Quando eu aguardava ansioso para encontrar a namoradinha, a pressa dos ponteiros finalmente jogava a meu favor. Mas, ao final das noitadas com amigos pelos bailes da vida, quando amanhecia, lá estava ele novamente, em parceria com minha mãe:  “Menino, já é hora de acordar. Você não tem vergonha de dormir até essa hora?” O tempo passou, e ele permaneceu. Registrou meu ingresso nos escritórios, definiu turnos, intervalos, almoços. Sempre ele, um perseguidor implacável do tempo.  Hoje, quando a idade enfim me concedeu o justo descanso da aposentadoria, continua marcando — agora com velocidade galáctica — o momento da minha extinção.  Mas,...