Nas cidades brasileiras, as
esquinas deixaram de ser simples cruzamentos: viraram pontos de encontro entre
necessidade e lucro. Onde antes havia padarias e armazéns, agora brotam
farmácias — muitas, incontáveis — como pequenas filiais de laboratório exibindo
a vitrine da nossa doença coletiva.
E não falo da doença que se mede
com termômetro, mas da outra, mais grave: a falta de pudor. A velha lei do
capitalismo reina sem cerimônia. Quanto mais vulnerável o cliente, maior o
preço; quanto mais urgente a necessidade, mais gordo o faturamento.
Ontem, meu neto recém-nascido
precisou de um medicamento. Nada raro. Entrei numa das cinco farmácias da mesma
esquina e pedi o remédio. O atendente trouxe dois frascos: adultos e
pediátrico. A etiqueta vermelha — “Uso pediátrico” — gritava mais alto que o
preço. O frasco infantil custava 50% a mais, embora tivesse a mesma fórmula,
dosagem e apresentação. A única diferença era o rótulo, como se tivesse sido
impresso com tinta de ouro.
O atendente sorriu aquele sorriso
treinado, que não responde nada. Não é culpa dele. Ele apenas representa um
sistema que descobriu que a fragilidade de um bebê vale mais do que a saúde de
um adulto — e cobra por isso.
É aí que a crônica se revela: não
são farmácias, são mansões detentoras da vida, onde a sobrevivência é vendida
em gotas. E quem precisa, paga. Paga porque não há alternativa. Paga porque
amor não negocia.
O país está doente, sim — da
ganância, da normalização do absurdo, da ideia de que é natural um remédio
infantil custar mais porque bebês não reclamam.
Enquanto isso, as esquinas seguem
se enchendo de farmácias, templos modernos onde se compra esperança. Mas
esperança, aqui, tem preço. E não é barato.
No fim, fica a sensação amarga de
que vivemos num grande “salve-se quem puder”. E quem não puder… vira
estatística.
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