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Frio de Renguear Cusco - Memórias, música e um rancho na zona sul de Porto Alegre

 

 

Desde menino — daqueles tempos de calça curta — convivo com a expressão gaudéria “frio de renguear cusco”. Ela sempre me acompanhou como uma espécie de termômetro afetivo: quando o frio apertava de verdade, era esse o jeito de medir a friagem.

Lembro do meu pai chegando ao entardecer, depois da lida, enxaguando o corpo porque o frio parecia entrar pelas juntas. Logo se achegava ao fogão a lenha, a única mordomia possível naqueles tempos escassos. A lenha já estava cortada. Minha mãe, entre tantas tarefas, manejava o machado com uma habilidade admirável. Eu, vez ou outra, arriscava cortar umas “achas”, mas nunca fui um exímio cortador de lenha.

Sobre o fogão, a velha chaleira de ferro — impregnada de fumaça, com uma crosta espessa de tanto uso — aquecia a água para o chimarrão, ritual sagrado das tardes invernais. Era ali, naquele cenário simples, que o frio parecia menos bravo.

No último final de semana, essas lembranças voltaram com força. Estive na zona sul de Porto Alegre, na Vila Nova, numa casa que pertenceu ao imigrante italiano Vicente Monteggia, que chegou à região entre 1875 e 1898. Hoje, o lugar abriga o “Rancho Tabacaray”, um recanto que preserva o espírito campeiro com autenticidade.

Ali tive o prazer de ouvir boa música regional com o compositor e cantor Mauro Moraes, degustar um vinho de respeito e provar a “Parrilla” — especialidade da casa. A noite estava perfeita, mas carregava um detalhe que me fez viajar no tempo: fazia um frio de renguear cusco.

Para quem não está acostumado com o dialeto gaúcho, “cusco” é cachorro. E “renguear” é mancar, tremer, erguer a pata para fugir da geada. É aquele frio que não se mede em graus, mas em lembranças.

E era exatamente esse frio. Frio dos pampas. Frio que molda quem nasce aqui.

Frio que não se explica — se vive.

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