Dizem que ele morreu. Falam isso com naturalidade. Mas ninguém sabe ao certo. O que sabem, repetem. O que não sabem, inventam.
Ele era figura constante nas vielas da periferia, desses que parecem conhecer cada buraco. Caminhava como quem desliza, sempre surgindo onde menos se esperava. Conversava com todos: com o dono do bar, com a senhora que vendia frutas na esquina, com os meninos que jogavam bola no campinho de terra. Tinha ideias demais para caber nas ruas estreitas que o moldaram.
E então, um dia, sumiu.
Não foi só ausência. Foi apagamento. Como se uma mão invisível tivesse passado pela cidade e varrido sua existência. Sem aviso, sem ruído, sem despedida. Escafedeu-se. Evaporou como se nunca tivesse existido. Nenhum corpo, nenhum rastro, nenhuma pista. Só o vazio. E o vazio, como sempre, foi preenchido por boatos.
Nos becos, sussurravam que ele fugiu. Nos bares, juravam que ele foi silenciado. Nas redes, inventaram histórias tão elaboradas que pareciam roteiros de série policial. Campo fértil para quem vive de espalhar mentiras com a mesma facilidade com que acende um cigarro.
Hoje, dizem que ele é um vulto. Que ainda circula pelas ruas, mas só à noite, quando a cidade baixa a guarda e as sombras ganham vida própria. Alguns juram ter visto sua silhueta atravessando a avenida deserta. Outros afirmam ter ouvido sua voz, distante.
Agora, resta apenas a dúvida.
E o medo de que ele não tenha morrido coisa nenhuma.
Que esteja só esperando.
E que volte.
Porque certas figuras, quando somem, continuam vivas demais para serem
dadas como mortas.
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