Pular para o conteúdo principal

O Apagamento

 


Dizem que ele morreu. Falam isso com naturalidade. Mas ninguém sabe ao certo. O que sabem, repetem. O que não sabem, inventam.

Ele era figura constante nas vielas da periferia, desses que parecem conhecer cada buraco. Caminhava como quem desliza, sempre surgindo onde menos se esperava. Conversava com todos: com o dono do bar, com a senhora que vendia frutas na esquina, com os meninos que jogavam bola no campinho de terra. Tinha ideias demais para caber nas ruas estreitas que o moldaram.

E então, um dia, sumiu.

Não foi só ausência. Foi apagamento. Como se uma mão invisível tivesse passado pela cidade e varrido sua existência. Sem aviso, sem ruído, sem despedida. Escafedeu-se. Evaporou como se nunca tivesse existido. Nenhum corpo, nenhum rastro, nenhuma pista. Só o vazio. E o vazio, como sempre, foi preenchido por boatos.

Nos becos, sussurravam que ele fugiu. Nos bares, juravam que ele foi silenciado. Nas redes, inventaram histórias tão elaboradas que pareciam roteiros de série policial. Campo fértil para quem vive de espalhar mentiras com a mesma facilidade com que acende um cigarro.

Hoje, dizem que ele é um vulto. Que ainda circula pelas ruas, mas só à noite, quando a cidade baixa a guarda e as sombras ganham vida própria. Alguns juram ter visto sua silhueta atravessando a avenida deserta. Outros afirmam ter ouvido sua voz, distante.

Agora, resta apenas a dúvida.

E o medo de que ele não tenha morrido coisa nenhuma.

Que esteja só esperando.

E que volte.

Porque certas figuras, quando somem, continuam vivas demais para serem dadas como mortas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Perdão. Peço desculpa, eu errei

  Pedir desculpa sempre me soou como aquele momento em que precisamos admitir que colocamos sal demais na comida: ninguém quer confessar, mas todo mundo percebeu. Em debates acalorados, então, a dificuldade dobra. A gente entra cheio de certezas, argumentos afiados e aquela convicção quase teatral… até perceber que exagerou na dose.   Errar faz parte — é quase um item obrigatório do pacote “ser humano”. O problema é que, quando estamos defendendo nosso ponto de vista com entusiasmo demais, qualquer detalhe vira motivo para levantar a voz, esticar a frase e criar uma divergência que, no fundo, não precisava existir. Depois, olhando com calma, percebemos que algumas palavras saíram tortas, outras vieram fortes demais, e a intenção se perdeu no caminho.   É aí que entra o gesto que quero destacar: o simples, porém poderoso, ato de pedir perdão. Não aquele pedido automático, dito só para encerrar o assunto, mas o sincero, que reconhece que nossas interpretações foram exagera...

São Jorge: guardião das batalhas que nunca cessam

    Desde menino, antes mesmo de entender o peso das palavras ou o sentido das crenças, eu já convivia com a figura imponente de um cavaleiro que parecia vigiar a casa inteira. São Jorge — montado em seu cavalo branco, lança firme, dragão aos pés — era mais do que um santo. Era um guardião silencioso, desses que não precisam falar para que a gente sinta a presença. Na parede da sala, pendurado um pouco torto, vivia um quadro já desbotado pelo tempo. Minha mãe o tratava como relíquia. Ao lado dele, sempre repousava uma palma benta do Domingo de Ramos, guardada com o mesmo cuidado com que se protege um segredo antigo. Ela dizia que aquilo afastava maus olhados, invejas, sombras que às vezes rondam a vida da gente sem pedir licença. E quando o céu escurecia de repente, quando trovões rasgavam o silêncio e os relâmpagos iluminavam nossa casa humilde, lá ia minha mãe — firme, devota, corajosa — fazer sua prece ao guerreiro. Era bonito de ver: enquanto o mundo lá fora parecia ...

O Relógio

Sempre tivemos uma relação pouco amistosa, eu e ele.  Na infância, era o encarregado de me arrancar da cama para a escola. Nos dias em que alguma moléstia infantil me derrubava, lá estava ele marcando com precisão o horário dos remédios — aqueles de sabor salobro que pareciam castigo. Na adolescência, tivemos alguns momentos de trégua. Quando eu aguardava ansioso para encontrar a namoradinha, a pressa dos ponteiros finalmente jogava a meu favor. Mas, ao final das noitadas com amigos pelos bailes da vida, quando amanhecia, lá estava ele novamente, em parceria com minha mãe:  “Menino, já é hora de acordar. Você não tem vergonha de dormir até essa hora?” O tempo passou, e ele permaneceu. Registrou meu ingresso nos escritórios, definiu turnos, intervalos, almoços. Sempre ele, um perseguidor implacável do tempo.  Hoje, quando a idade enfim me concedeu o justo descanso da aposentadoria, continua marcando — agora com velocidade galáctica — o momento da minha extinção.  Mas,...