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O Aperol

 

 

A Itália me recebeu como quem abre um livro antigo e precioso: cada viela era uma página marcada pelo tempo, cada pedra carregava o peso de uma história que não se apaga. Em Milão, com sua elegância urbana; em Pompeia, onde o silêncio das ruínas sussurrava segredos de um mundo que já não existe. De norte a sul, o país inteiro parece suspenso entre séculos, preservado com um zelo quase sagrado — uma dedicação que desperta uma inveja profunda. Como conseguiram guardar tanto, por tanto tempo, com tamanha beleza?

Eu, viajante deslumbrado, deixei-me contaminar pela alegria espontânea do povo italiano. Caminhei por ruas estreitas, avenidas largas, becos escondidos, estradas que serpenteiam colinas. Entrei em bodegas, bares, tavernas, cafés que mais pareciam salas de estar abertas ao mundo. E em todos esses lugares, como um símbolo nacional, lá estava ele: o Aperol. Um ritual, uma celebração, uma pausa. Criado em 1919 pelos irmãos Barbieri, em Pádua, mas eterno como o sol que se derrama sobre o Mediterrâneo ao fim da tarde.

Nos meus dias italianos, virou meu companheiro oficial. Em Roma, brindou comigo ao caos encantador das praças; em Nápoles, refrescou o calor que parecia querer me cozinhar; em Veneza, refletiu a luz dourada dos canais como se fosse parte da paisagem; em Florença, tentou competir com o Renascimento (perdeu, mas com dignidade); em Capri, misturou-se ao azul do mar.

Toquei três mares — Adriático, Tirreno e Jônico — como quem toca diferentes versões de um mesmo sonho. E quando o corpo pedia pausa, era ele que me devolvia o fôlego. Um poema líquido, um hino à beleza, um brinde às visões que a Itália oferece sem pedir nada em troca. Cada gole era uma celebração da vida, da viagem, da descoberta… e, às vezes, da minha incapacidade de dizer “não” a mais um copo.

Era como se o Aperol, com sua cor vibrante e sabor inconfundível, traduzisse em bebida tudo aquilo que eu sentia: encantamento, gratidão, deslumbramento.

Porque, no fim, a Itália não é apenas um destino. É uma experiência que se bebe, se respira, se guarda. E o Aperol, ali, sempre presente, é o brinde que eterniza cada memória.

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