Anselmo chegava cedo à Praça da
Catedral. Sentava-se sempre no mesmo banco, o guarda‑chuva azul
aberto — não contra a
chuva, mas contra a “tristeza que vinha de cima”. Lia um jornal de 2003 como se fosse atual, dobrando as páginas com cuidado. Os pombos o cercavam; ele conversava com eles
como velhos amigos.
Rozeli passava cantando boleros,
olhos fechados, dona de um palco imaginário. Anselmo nunca falava com ela,
apenas escutava — e isso bastava para os dois.
Até que Caíque apareceu, menino
de onze anos, vendedor de chicletes e perguntas. Sentou-se ao lado de Anselmo e
voltou todos os dias. Queria saber do guarda‑chuva, do jornal velho, da vida
antiga que cheirava a bolo e silêncio. Anselmo
contou que já dirigira ônibus,
que reconhecia passageiros pelo jeito de subir, e que uma vez quase perdeu o
ponto final porque alguém cantou “Contigo Aprendi”.
Naquela tarde, Rozeli parou
diante deles e cantou baixinho. Anselmo fechou os olhos. O jornal caiu de suas
mãos. O vento levou a página até Caíque, que a guardou na mochila “pra guardar
o que importa”, disse.
Rozeli sorriu. Anselmo também. E
ali, entre pombos, boleros e um guarda‑chuva azul, a praça parecia respirar mais devagar.
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