Para o amigo João Carlos,
que inspirou estas linhas.
O mês era junho — talvez julho; a
memória insiste em borrar as bordas desse tempo. Na esquina, a velha mansão
dormia sob a sombra dos jacarandás. As paredes brancas, exibiam rachaduras que
lembravam veias expostas, sugerindo que o casarão tinha um corpo próprio, uma
história que ainda pulsava sob a tinta desbotada. Imponente, guardava aquele
pedaço da cidade como quem vigia um segredo.
Dizem que, em seus dias de
brilho, ali aconteciam saraus que atravessavam a madrugada. Senhores de cartola
e bengala, damas com seus chapéus cloche, todos desfilando silhuetas
elegantes pelo salão. Era um cenário que parecia arrancado do século XIX. A
família que vivia ali — oito pessoas — orbitava em torno de um patriarca
austríaco: homem alto, cabelos cor de fogo, barba espessa, postura que não admitia
contestação.
Entre os quatro filhos homens,
havia um que se destacava pelos pendores artísticos. Tinha aquela alma sensível
que se reconhece no primeiro gesto. Apaixonado por música erudita, dedicava-se
às composições de Mozart com devoção quase religiosa. Com o tempo, a cidade
inteira passou a conhecer o “jovem músico da mansão da esquina”. Alguns
moradores paravam diante do portão só para ouvir. Outros juravam que havia algo
de sobrenatural naquelas notas, como se o som viesse de um lugar que não cabia
no mundo.
Há quem diga que, certa noite,
Hans, esse era o nome, executou uma peça inteira sem que o arco tocasse as
cordas. Outros afirmam que ele conversava com o violino, e que o instrumento
respondia, paciente, como um velho amigo.
O fato é que, depois de sua morte
precoce — envolta em silêncio, sem data, sem explicação — a mansão nunca mais
foi a mesma.
O salão onde ele tocava permanece
intacto, como se o tempo tivesse decidido respeitar aquele espaço.
E, em noites de vento, quem passa
pela esquina ainda escuta notas dispersas, frágeis, quase tímidas, como se Hans
continuasse ali, soprando vida às paredes, recusando-se a abandonar o lugar.
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