Diariamente recebo centenas. É um
verdadeiro congestionamento de “Santos” atravessando minha tela, disputando
espaço como se o smartphone fosse uma procissão infinita. Eles chegam sem pedir
licença, empurrando-se uns aos outros, obstruindo minha capacidade de entender
os limites da fé — se é que ainda existem limites quando o assunto é corrente
religiosa digital.
Entre uma imagem de Santo Antônio
borrada e uma Nossa Senhora em resolução duvidosa, surgem também as mensagens
motivacionais. Todas carregam doses generosas de amor, esperança e justiça,
como se fossem vitaminas espirituais prescritas para o bom funcionamento da
alma. “Bom dia!”, “Deus te abençoe!”, “Que Nossa Senhora Mãe dos Homens ilumine
seu dia!” — incentivos diários para que eu cumpra minha jornada com a
serenidade de um monge tibetano.
São tantas manifestações que
minha caixa postal transborda. Entope. Fica saturada de pequenos “cookies1”
emocionais — fragmentos de fé, carinho e boas intenções que se acumulam nas
nuvens da web como poeira digital. Confesso que, por vezes, me chateio com esse
excesso de devoção virtual. Não pela fé em si, mas pelo volume. Em meio a
tantas imagens de santos e frases de efeito, textos realmente bons, que trazem
conhecimento, reflexão ou até uma boa história, acabam soterrados. São
pulverizados entre tantas demonstrações de afeto que, ironicamente, acabam
sufocando aquilo que poderia expandir o pensamento.
Respeito profundamente a
sensibilidade de quem posta. Sei que, para muitos, enviar essas mensagens é uma
forma de cuidado, quase um abraço. Mas convenhamos: é muito santo para pouca
esperança. Ou talvez seja esperança demais, distribuída em excesso, como quem
tempera a comida com sal sem perceber que já colocou três colheres.
No fim das contas, sigo abrindo
as mensagens com a mesma curiosidade resignada de quem sabe que, entre um São
Jorge e um “Bom dia abençoado”, talvez exista uma pérola escondida. E sigo
torcendo para que, um dia, ela não seja esmagada por mais um santo em JPEG2.
1 Cookies são arquivos criados por sites para coletar e armazenar
informações sobre a tua navegação. Eles ficam guardados no teu dispositivo e
são enviados de volta ao site quando você retorna, permitindo que o site
“lembre” de você.
2 JPEG (ou JPG) é um formato de imagem digital muito usado para
fotos. O nome vem de Joint Photographic Experts Group, o comitê que criou o
padrão.
Comentários
Postar um comentário
Agradeço sinceramente pela sua leitura e pela presença neste espaço. Sua participação enriquece o diálogo e contribui para a construção de reflexões mais amplas. Seja sempre bem-vindo.