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Passarelas da Gaivota


 

O horizonte da Gaivota — uma só, grafada assim mesmo, no singular — talvez porque, se existiu outra, nunca a vi. Todos os dias, amanhece como quem abre lentamente uma cortina, estendendo-se diante de nós, imenso e paciente, oferecendo nuances que mudam conforme o humor do sol. Há manhãs em que o mar se veste de vermelho intenso, quase dramático; em outras, deixa que a luz se dissolva suavemente nas areias do balneário, como se estivesse com preguiça de começar o dia.

A cada passo, não consigo evitar que a memória me leve para muito antes de qualquer calçadão colorido. Imagino os “carijós”, donos primeiros destas terras, moldando sambaquis que hoje são testemunhas silenciosas de uma história que quase esquecemos. Depois vieram os “açorianos”, trazendo sotaques, crenças e o desejo de fincar raízes num território que ainda era mais natureza do que cidade.

Mas o tempo, esse escultor incansável, não para. Hoje, o litoral se desenha em passarelas infinitas, cada uma com seu ritmo próprio. O calçadão virou palco: moradores desfilam suas rotinas de exercício, ciclistas serpenteiam entre os passantes, e a cidade pulsa num compasso que não existia antes. A Gaivota que conheci era outra — mais azul, mais verde, mais silêncio. Agora, o olhar encontra barreiras de concreto, projetos arquitetônicos que se erguem com ousadia, contrastando com aquela vida interiorana que parecia eterna.

É a evolução, dizem. E é mesmo. A economia cresce, a modernidade chega, os prédios sobem. Mas junto com tudo isso vem uma sensação sutil, quase melancólica, de que algo se perde: a tranquilidade sem pressa, o tempo que não corria atrás de ninguém.

E no fundo dessa fotografia imaginária, ficam as “Passarelas da Gaivota.”

 

 

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