Acordei cedo, calcei meu velho tênis
Conga desbotado e segui em direção ao mar. O céu, límpido, deixava o horizonte
se revelar aos poucos. Caminhei alguns passos e, ao longe, o oceano se abriu
diante de mim: um turbilhão de água
inquieta. Vi veleiros riscando a superfície, navios e
gaivotas que desenhavam arabescos no ar.
Por um instante, tracei
mentalmente rotas imaginárias — linhas que ligavam terras distantes ao ponto
exato onde eu estava. Respirei fundo.
Ao redor, a cidade despertava.
Telhados, chaminés, e do pátio da escola vinha a algazarra das crianças,
cantando com aquela alegria que só elas dominam: “Se essa rua, se essa rua
fosse minha…” O coro infantil se misturava ao gorjear dos pássaros, como se
todos participassem de um mesmo ensaio para celebrar o dia.
Meu pensamento, sempre apressado,
reorganizou-se na velocidade da luz — porque o cérebro, quando provocado, é
assim: responde antes mesmo que a gente termine a pergunta.
E então, num gesto quase
involuntário, deixei que o som das ondas me tomasse por completo. Elas se
debruçavam sobre a areia com a delicadeza de quem repousa a cabeça no colo de
alguém querido. Ali, entre o canto das crianças e o murmúrio do mar, senti que
a rua, se fosse minha, começaria exatamente naquele instante.
Segui caminhando. O tênis
desbotado rangia levemente, como se reclamasse da areia que insistia em se
infiltrar entre seus fios. E eu, teimoso, continuava a avançar, porque há
manhãs em que o corpo precisa apenas seguir — sem destino.
Ao longe, um pescador ajeitava
sua rede. O gesto era lento, quase ritualístico. Ele olhou para o céu, como
quem consulta um velho amigo, e depois lançou a rede com a precisão de quem
aprendeu a conversar com o mar.
Parei para observar. Há algo de
profundamente humano na rotina dos que vivem da água: uma confiança silenciosa.
E então, como se o mundo tivesse
decidido me oferecer um pequeno espetáculo, uma gaivota pousou perto de mim.
Não parecia assustada. Apenas me fitou com aquele olhar enviesado, como se
perguntasse o que eu fazia ali tão sozinho, entregue àquela rua, como se fosse
minha.
Sorri.
A vida, às vezes, se revela
nesses encontros breves — entre o canto das crianças, o rumor das ondas e o
olhar curioso de uma gaivota.
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