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Se Essa Rua…

 

 

Acordei cedo, calcei meu velho tênis Conga desbotado e segui em direção ao mar. O céu, límpido, deixava o horizonte se revelar aos poucos. Caminhei alguns passos e, ao longe, o oceano se abriu diante de mim: um turbilhão de água inquieta. Vi veleiros riscando a superfície, navios e gaivotas que desenhavam arabescos no ar.

Por um instante, tracei mentalmente rotas imaginárias — linhas que ligavam terras distantes ao ponto exato onde eu estava. Respirei fundo.

Ao redor, a cidade despertava. Telhados, chaminés, e do pátio da escola vinha a algazarra das crianças, cantando com aquela alegria que só elas dominam: “Se essa rua, se essa rua fosse minha…” O coro infantil se misturava ao gorjear dos pássaros, como se todos participassem de um mesmo ensaio para celebrar o dia.

Meu pensamento, sempre apressado, reorganizou-se na velocidade da luz — porque o cérebro, quando provocado, é assim: responde antes mesmo que a gente termine a pergunta.

E então, num gesto quase involuntário, deixei que o som das ondas me tomasse por completo. Elas se debruçavam sobre a areia com a delicadeza de quem repousa a cabeça no colo de alguém querido. Ali, entre o canto das crianças e o murmúrio do mar, senti que a rua, se fosse minha, começaria exatamente naquele instante.

Segui caminhando. O tênis desbotado rangia levemente, como se reclamasse da areia que insistia em se infiltrar entre seus fios. E eu, teimoso, continuava a avançar, porque há manhãs em que o corpo precisa apenas seguir — sem destino.

Ao longe, um pescador ajeitava sua rede. O gesto era lento, quase ritualístico. Ele olhou para o céu, como quem consulta um velho amigo, e depois lançou a rede com a precisão de quem aprendeu a conversar com o mar.

Parei para observar. Há algo de profundamente humano na rotina dos que vivem da água: uma confiança silenciosa.

E então, como se o mundo tivesse decidido me oferecer um pequeno espetáculo, uma gaivota pousou perto de mim. Não parecia assustada. Apenas me fitou com aquele olhar enviesado, como se perguntasse o que eu fazia ali tão sozinho, entregue àquela rua, como se fosse minha.

Sorri.

A vida, às vezes, se revela nesses encontros breves — entre o canto das crianças, o rumor das ondas e o olhar curioso de uma gaivota.

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