Acordou sobressaltada, o coração
em agitação. No escuro do quarto, acendeu o abajur de cabeceira, cuja luz
difusa e amarelada inundou o ambiente. As sombras nas paredes pareceram
esticar-se, ganhando vida própria. A brisa que vinha de fora moveu a cortina de
seda, que se enroscou no espaldar da cadeira de descanso. O quarto parecia
respirar, e ela sentiu o desconforto crescer — uma presença invisível que a
observava.
Ergueu-se rapidamente, abriu as
janelas e deixou a cidade invadir o quarto. Um alívio imediato percorreu seu
corpo ao ouvir o jornaleiro gritando as manchetes, o som das buzinas, o
burburinho cotidiano que lhe devolvia a realidade. A claridade revelou cada
detalhe do interior, e foi então que ela viu — sobre o lençol de seda — um fio
escuro de cabelo.
Correu até o espelho. A imagem
refletida era a mesma: a mulher loira, exuberante em sua juventude. Fitou a
própria cabeleira dourada e, em silêncio, interrogou-se. O fio preto na cama.
Tentou reconstruir a noite anterior, mas tudo era fragmento: a campainha, a
música antiga na vitrola, a corrida pela escada, o mistério que se recusava a
se completar. Como se alguém tivesse estado ali. Como se alguém ainda
estivesse.
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