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A Batina do Padre Salvatore

 

Houve um tempo em que as missas dominicais da igrejinha do bairro reuniam quase toda a comunidade. Dizia-se que metade dos presentes comparecia por fé e a outra metade por simples curiosidade. Ninguém sabia ao certo se a conta era verdadeira, mas bastava olhar ao redor para acreditar.

Os velhos bancos de madeira, gastos por décadas de joelhos penitentes, acolhiam figuras que hoje permanecem apenas na memória daqueles que viveram aqueles dias.

Entre elas estava o Vesgo Caolho, homem magro como vara de pescar, que jamais perdia uma missa. Os mais maldosos comentavam que ele aparecia apenas para receber a hóstia, como quem garantia uma refeição. Ele, porém, sempre negava.

— Eu venho pela palavra de Deus — costumava responder, limpando a boca logo depois da comunhão.

Na primeira fila sentavam-se as irmãs Margarida, Madalena e Magnólia. Já haviam passado dos quarenta e muitos anos e nunca se separavam. Vestiam-se com discrição, carregavam enormes terços e rezavam com uma devoção tão intensa que chegava a impressionar.

Alguns acreditavam que agradeciam diariamente por terem permanecido castas.

Outros juravam que rezavam para encontrar marido.

As três negavam as duas versões.

— Nossa vida é um mistério entre nós e a Virgem Maria — respondia Magnólia, encerrando qualquer tentativa de investigação.

Mas a verdadeira atração daquelas missas era o padre Salvatore.

Italiano de nascimento, bonachão por natureza, tinha o rosto gorducho e avermelhado, cabelos ralos e uma teimosa franjinha de rapaz caindo sobre a testa. Seu sotaque carregado fazia parte da igreja. Durante os sermões, arrancava risadas dos meninos e meninas do catecismo, que faziam algazarra nos bancos do fundo.

Contudo, a marca registrada do padre Salvatore não era sua voz.

Era sua batina.

Velha, desbotada e cheia de remendos, a roupa parecia ter atravessado batalhas. Os punhos brilhavam de tão gastos. A bainha carregava rasgos e manchas escuras adquiridos numa luta constante contra a correia de sua bicicleta.

Porque o padre Salvatore andava para todo lado pedalando.

Visitava doentes de bicicleta. Ia aos batizados de bicicleta. Comparecia aos velórios de bicicleta.

Quem o visse de longe poderia jurar estar diante de um artista de circo. Equilibrava-se pelas ruas esburacadas do bairro montado em sua velha companheira de duas rodas, carregando debaixo do braço um enorme guarda-chuva preto.

O guarda-chuva era outro mistério.

Fizesse sol. Fizesse chuva. Ninguém jamais o viu sem aquele objeto.

As teorias circulavam pela comunidade.

O padre apenas sorria

— Um homem prevenido vale por dois.

E não dizia mais nada.

Durante as festividades da padroeira, toda o bairro se reunia na grande quermesse. A praça enchia-se de vida. Havia barraquinhas de algodão-doce, pipoca, pescaria, roda-gigante e um velho carrossel que rangia como um navio perdido em alto-mar.

Padre Salvatore caminhava entre os visitantes recolhendo doações para as necessidades da igreja. Cumprimentava um, abençoava outro, fazia uma brincadeira aqui, contava um caso ali.

E, como sempre acontecia nesses eventos, apareciam os barris de chope.

Era então que o padre revelava um hábito que divertia a comunidade.

Tomava chope com uma tranquilidade impressionante.

Sentava-se à mesa, conversava com os fiéis e apreciava seu copo com a serenidade.

Muitos anos se passaram desde então.

A igrejinha continua de pé, mas os personagens daquele tempo foram se espalhando pelas páginas invisíveis da memória.

Ainda assim, vez ou outra, quando os mais antigos se reúnem para conversar, o nome do padre Salvatore volta à roda, acompanhado de um sorriso saudoso.

E até hoje há quem diga que aquele padre era um santo.

 

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