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O Homem Só

 


 
A cidade estava vazia naquela tarde. Uma brisa leve formava redemoinhos nas esquinas, levantando nuvens de poeira, jornais envelhecidos e pequenos restos de descartes que a vassoura do gari deixara escapar. O homem caminhava vagarosamente entre bancas de revistas fechadas e cavaletes de ambulantes abandonados. Estranhamente, naquela rua não havia sinal de viva alma.
Era um deserto.
De vez em quando, junto à sarjeta, um pequeno vulto se movia. Um rato. Nada mais. Nenhum carro, nenhuma conversa, nenhum telefone tocando. Apenas o som de seus próprios passos ecoando entre as fachadas silenciosas.
Sem perceber, começou a acelerar o ritmo. Sua mente processava cada detalhe do ambiente ao redor. Algo estava errado. O silêncio não era apenas ausência de ruído; era uma presença inquietante, pesada, que parecia observá-lo de todos os cantos.
Sentia-se só.
Cada esquina que surgia diante de seus olhos trazia uma nova sensação de desconforto. Onde estavam todos? O que havia acontecido? Teria perdido alguma notícia importante? Uma evacuação? Uma catástrofe?
Nenhuma resposta.
A cidade daquele homem já não parecia ser a mesma cidade.
Parou por alguns segundos. Fechou os olhos. Então ouviu ao longe um som indefinido. Era fraco, quase imperceptível, mas suficiente para reacender uma esperança. Como um aplicativo recalculando uma rota em tempo real, reorganizou seus pensamentos e mudou de direção. Talvez ali encontrasse alguém. Talvez encontrasse uma explicação.
Enquanto caminhava, sua mente viajou por lembranças fragmentadas. Rostos sem nome. Ruas cheias. Crianças correndo. A vida que sempre habitara aqueles lugares.
O som distante foi ficando mais nítido.
Uma luz. Depois outra.
E, de repente, todo o cenário desapareceu.
A luz do quarto havia sido acesa.
A enfermeira da clínica psiquiátrica aproximou-se com a medicação matutina sobre uma bandeja. O homem abriu os olhos lentamente, encarando por alguns instantes o teto branco acima de si.
Ele gemeu discretamente, virou o rosto para o outro lado e fechou os olhos novamente.
Poucos segundos depois, adormeceu.
Talvez para voltar àquela cidade onde era o único habitante. Ou talvez porque, no fundo, a solidão dos seus sonhos fosse menos dolorosa que a realidade que o aguardava quando desperto.

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