Ninguém
compreendia a aversão que ela demonstrava sempre que precisava entrar no quarto
69. Para a equipe, era apenas mais um paciente: um homem reservado, de
meia-idade, internado havia meses. Nada parecia justificar tamanho desconforto.
Mas, ao se
aproximar daquela porta, sentia o estômago revirar e o coração disparar. Era
como se fosse arrastada para um passado que tentava esquecer.
Após ser
afastada do trabalho, refugiou-se em seu apartamento. Entre garrafas de whisky
vazias e noites sem sono, abriu uma velha caixa guardada no fundo do armário.
Dentro dela havia fotografias, recortes de jornais e lembranças que jurara
nunca mais revisitar.
Foi então que
encontrou uma fotografia.
Ao vê-la,
empalideceu.
Era ele.
Mais jovem,
mas inconfundível.
O paciente do
quarto 69 não era um estranho. Vinte e sete anos antes, havia sido o principal
suspeito de um desaparecimento jamais esclarecido. Sem provas, o caso foi
arquivado, e ela seguiu a vida acreditando ter deixado o passado para trás.
Até
encontrá-lo novamente.
No início,
pensou tratar-se de uma coincidência. Mas cada detalhe de sua história
confirmava o que sua razão se recusava a aceitar.
Era o mesmo
homem.
E ele
aparentemente não a reconhecera.
A partir daí,
sua vida começou a desmoronar. A necessidade de descobrir a verdade
transformou-se em obsessão.
Mas havia algo
ainda mais perturbador.
Na última vez
que o visitou, antes de ser afastada, o paciente segurou seu braço e sussurrou:
— Eu sabia que
você voltaria.
Ela nunca
contou isso a ninguém.
Porque naquele
instante compreendeu uma verdade assustadora:
Ele a
reconhecera desde o primeiro dia.
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