Todas as manhãs, ele ergue as
folhas desgastadas da persiana, o retângulo da janela se abre como um pequeno
mundo particular. É sempre o mesmo enquadramento, mas nunca a mesma história.
Lá fora, a cidade desperta em sua coreografia repetida: o horizonte recortado
pelas paredes frias dos prédios, árvores teimosas que insistem em existir entre
camadas de concreto, o canto melancólico dos sabiás nas laranjeiras, as
caturritas em suas algazarras matinais, e dezenas de janelas que se abrem para
mais um dia — cada uma guardando vidas e segredos que jamais conhecerá.
Ele fica ali, sentado diante da
escrivaninha, as mãos repousadas sobre o teclado, a mente vagando por entre
prédios, nuvens e lembranças. Busca inspiração como quem procura um sinal no
céu. A rotina, às vezes pesada como chumbo, outras vezes leve como uma pluma
que serpenteia perdida entre arbustos e sacadas, molda seus pensamentos.
Entre silêncios e rabiscos, seus
textos começam a nascer. Personagens surgem como testemunhas inquietas de seus
devaneios, criaturas que se arrastam pelo espaço comprimido entre estantes
abarrotadas de livros. É nesse refúgio estreito que ele se recolhe para pensar
na vida, no tempo e nas maneiras sutis com que ambos escapam por entre seus
dedos.
Quando a tarde cai e a noite,
teimosa, começa a apagar tudo como um borrão sobre a memória, sente um aperto
que não sabe nomear. E então, sozinho diante da janela que já não mostra nada
além de sombras, ele chora.
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