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O Sorriso Perturbador

 

 

A gargalhada ecoou de forma sinistra pelos corredores da enfermaria, espalhando-se pelos outros andares do prédio. Havia nela um tom sarcástico e perturbador.

Como acontecia quase todas as noites, ele despertava sob uma estranha agonia. Seus olhos percorriam o quarto escuro, enquanto vultos pareciam deslizar pelas paredes. As atendentes do andar ficavam atônitas sempre que ele insistia em afirmar que estava sendo perseguido. Com o dedo apontado para o vazio, balbuciava palavras indecifráveis, como se tentasse alertar alguém sobre uma ameaça que somente ele conseguia enxergar.

O silêncio que se seguia era ainda mais assustador. As funcionárias trocavam olhares inquietos, sem saber ao certo se presenciavam os delírios de uma mente atormentada ou algo que escapava à compreensão de todos.

Assim, os anos foram passando, e aquele corpo quase inerte sobre a cama já não lembrava em nada o jovem audacioso e esbelto que, um dia, atraíra os olhares apaixonados de tantas mulheres. O vigor da juventude dera lugar à fragilidade, e o brilho da confiança transformara-se em um olhar perdido, aprisionado entre as sombras do presente e os fantasmas do passado.

Surgia agora um fato novo naquele ambiente: a presença de uma mulher de quem ele se lembrava, mas cuja origem em sua memória permanecia indecifrável. Sabia apenas que já a conhecera em algum momento da vida. Havia nela uma repulsa evidente em relação a ele, embora não conseguisse imaginar o motivo. O que mais o inquietava era que, apesar das lembranças fragmentadas, jamais esquecera aquele sorriso perturbador.

Sua mente percorria infinitas possibilidades. Tentava reconstruir cenários, rostos, lugares e acontecimentos, mas todas as tentativas desembocavam no mesmo caminho: o medo. Um medo frio, que se infiltrava por seus pensamentos e o impedia de distinguir a realidade de seus pesadelos.

Então, ele chamou a enfermeira.

— Quem é aquela mulher? — perguntou com a voz trêmula, apontando para o corredor.

A atendente voltou os olhos para a direção indicada e, como sempre, não viu ninguém.

Mas, naquele instante, um arrepio percorreu-lhe a espinha. Ao virar-se novamente, percebeu que ele não estava olhando para o corredor.

Estava olhando para trás dela.

E sorrindo pela primeira vez em muitos anos, balbuciou: ela tá ali.

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