Passaram-se muitos anos. Ela
havia se recuperado, ao menos em aparência, das situações adversas que fizeram
dela uma mulher triste e emocionalmente fragilizada. Mas certas feridas não
desaparecem; apenas aprendem a se esconder.
O mundo ao seu redor era um
emaranhado de dúvidas e questionamentos. Nunca mais foi a mesma. Vivia em
permanente estado de alerta, como se algo terrível estivesse prestes a
acontecer. O simples toque do telefone podia anunciar uma tragédia. Um atraso
de poucos minutos transformava-se em motivo para angústia. Tudo servia de
combustível para seus medos.
O apartamento, localizado no
final de uma rua sem saída, tornou-se seu refúgio e sua prisão. Durante o dia,
era apenas mais um imóvel cercado pelo silêncio do bairro. À noite, porém,
assumia outra forma. Os corredores pareciam mais longos, as sombras mais
densas, os ruídos mais ameaçadores.
Ali, entre paredes que guardavam
lembranças demais, ela enxergava criaturas imaginárias. Não eram monstros de
dentes afiados ou olhos vermelhos. Eram figuras moldadas pela solidão, pela
culpa e pelas memórias que insistiam em retornar. Surgiam nos cantos escuros da
sala, escondiam-se atrás das portas entreabertas e acompanhavam seus passos
pelo corredor estreito como sombras de um passado que se recusava a morrer.
E, naquelas madrugadas insones,
ela já não sabia dizer o que era mais assustador: as criaturas que imaginava
ver ou as lembranças muito reais das quais jamais conseguiu escapar.
Comentários
Postar um comentário
Agradeço sinceramente pela sua leitura e pela presença neste espaço. Sua participação enriquece o diálogo e contribui para a construção de reflexões mais amplas. Seja sempre bem-vindo.