A casa de madeira era pequena,
com apenas duas peças: a cozinha e um cômodo adjacente que servia, ao mesmo
tempo, de sala e dormitório. Nos rigorosos invernos dos campos do Sul, a
família reunia-se em torno do fogão a lenha de quatro bocas. O crepitar das
brasas e os lampejos avermelhados refletidos nas paredes aqueciam aquele
ambiente simples, onde o tempo parecia correr mais devagar.
Entre um mate e outro, a panela
de ferro, encrostada de gordura, cozinhava a carne do almoço. A fumaça escapava
do fogão e subia lentamente em direção ao telhado de telhas de barro. Ali, onde
as vigas se encontravam formando ângulos semelhantes a pequenas pirâmides,
acumulava-se o “picumã”. Negro e espesso, nascido da fuligem de
incontáveis fogueiras, ele se agarrava às ripas como se fizesse parte da
própria construção.
Crescia devagar, ano após ano,
formando franjas escuras que balançavam quando o vento encontrava frestas entre
as tábuas da casa. As teias de aranha, recobertas pela fumaça, pareciam rendas
antigas, envelhecidas pelo tempo. Ninguém lhe dava importância. O “picumã”
estava simplesmente ali, como sempre estivera.
Mas ele era mais do que fuligem.
Guardava os sinais de muitos invernos, das madrugadas geladas, das chaleiras
permanentemente quentes e das conversas compartilhadas em torno do fogo. Era
testemunha silenciosa dos dias difíceis e das pequenas alegrias. Em seus fios
escuros pareciam repousar as memórias daquela família, acumuladas da mesma
forma que a fumaça se acumulava sob o teto.
Naquela casa, mistura de pobreza
e aconchego, viviam quatro pessoas e uma única esperança: a de que, um dia, a
vida pudesse melhorar. E enquanto o “picumã” seguia crescendo
silenciosamente entre as vigas, os sonhos também resistiam.
Afinal, sonhar ainda era possível
naqueles tempos.
(1) A palavra picumã tem origem no
tupi antigo. Dicionários etimológicos e lexicais registram formas como apeku'mã
ou apekumã, com o sentido de fuligem, que depois foi incorporado ao português
brasileiro. Originalmente, o termo se referia à fuligem produzida
pelo fogo. Com o tempo, seu significado foi ampliado para: teias de aranha
escurecidas pela fuligem; cabelo crespo ou encarapinhado.
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