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Picumã (1)

 


A casa de madeira era pequena, com apenas duas peças: a cozinha e um cômodo adjacente que servia, ao mesmo tempo, de sala e dormitório. Nos rigorosos invernos dos campos do Sul, a família reunia-se em torno do fogão a lenha de quatro bocas. O crepitar das brasas e os lampejos avermelhados refletidos nas paredes aqueciam aquele ambiente simples, onde o tempo parecia correr mais devagar.

Entre um mate e outro, a panela de ferro, encrostada de gordura, cozinhava a carne do almoço. A fumaça escapava do fogão e subia lentamente em direção ao telhado de telhas de barro. Ali, onde as vigas se encontravam formando ângulos semelhantes a pequenas pirâmides, acumulava-se o “picumã”. Negro e espesso, nascido da fuligem de incontáveis fogueiras, ele se agarrava às ripas como se fizesse parte da própria construção.

Crescia devagar, ano após ano, formando franjas escuras que balançavam quando o vento encontrava frestas entre as tábuas da casa. As teias de aranha, recobertas pela fumaça, pareciam rendas antigas, envelhecidas pelo tempo. Ninguém lhe dava importância. O “picumã” estava simplesmente ali, como sempre estivera.

Mas ele era mais do que fuligem. Guardava os sinais de muitos invernos, das madrugadas geladas, das chaleiras permanentemente quentes e das conversas compartilhadas em torno do fogo. Era testemunha silenciosa dos dias difíceis e das pequenas alegrias. Em seus fios escuros pareciam repousar as memórias daquela família, acumuladas da mesma forma que a fumaça se acumulava sob o teto.

Naquela casa, mistura de pobreza e aconchego, viviam quatro pessoas e uma única esperança: a de que, um dia, a vida pudesse melhorar. E enquanto o “picumã” seguia crescendo silenciosamente entre as vigas, os sonhos também resistiam.

Afinal, sonhar ainda era possível naqueles tempos.

 

 

 

 

 

(1) A palavra picumã tem origem no tupi antigo. Dicionários etimológicos e lexicais registram formas como apeku'mã ou apekumã, com o sentido de fuligem, que depois foi incorporado ao português brasileiro. Originalmente, o termo se referia à fuligem produzida pelo fogo. Com o tempo, seu significado foi ampliado para: teias de aranha escurecidas pela fuligem; cabelo crespo ou encarapinhado.

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