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Procuração em Branco

 

 

As esquinas do país transformaram-se em verdadeiros exércitos de bandeirolas. Uma fila interminável de rostos que jamais serão conhecidos, mas que se apresentam por meio de frases de efeito vazias de conteúdo.

Minha vontade, como cidadão, é poder me dirigir a cada um desses pré-candidatos aos quais delego uma procuração assinada em branco, dando plenos poderes para representar meus anseios e expectativas de uma sociedade mais solidária e de leis mais justas em benefício de todos, sem distinção.

Gostaria de perguntar-lhes o que fizeram ontem para merecer a confiança que pedem hoje. Gostaria de ouvir algo além dos slogans cuidadosamente ensaiados, das fotografias sorridentes e das promessas recicladas a cada eleição. Porque honestidade, trabalho e compromisso não deveriam ser promessas de campanha. Deveriam ser requisitos básicos para quem pretende ocupar um cargo público.

E, depois de avaliar tudo, vejo apenas uma sucessão de rostos estampados em papel, disputando espaço nas esquinas e nos postes, enquanto as ideias permanecem ausentes. Muda a fotografia, muda o número, muda o partido, mas o discurso continua o mesmo: repetido à exaustão, como uma oração sem fé.

E o mais inquietante é que, diante de tantos que prometem representar o povo, continuo sem encontrar alguém que o enxergue.

E depois de analisar tudo o que vejo... chego à conclusão de que não vejo nada.

Apenas o velho espetáculo das promessas novas. Porque, antes de saber em quem votar, eu gostaria de saber o que cada um fez com os votos que recebeu ontem. E acreditem: nós sabemos muito bem o que muitos fizeram.

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