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O Fardo da Infância

  Eu fui criança. Fui moleque. Como qualquer menino, corri pelos becos, rabisquei muros e testei os limites entre travessura e irresponsabilidade. Mas nunca, nunca pensei que poderia carregar a marca de um carrasco. Era uma manhã como qualquer outra. O varal tremulava ao vento, segurando com firmeza as roupas lavadas por minha mãe—o sustento de nossa casa humilde dependia daquelas peças bem cuidadas. E ali, entre fios estendidos e brisas suaves, pousou um pequeno beija-flor. Na inocência da infância, a “funda” 1 ou bodoque era mais que um objeto—era extensão de um espírito aventureiro e inconsequente. Pequenas esferas de cinamomo ou seixos eram lançadas sem grande reflexão, atingindo alvos que, em sua fragilidade, não compreendiam a brutalidade de um gesto tão impulsivo. Mas naquele dia, a brincadeira perdeu seu nome. O disparo ecoou como sentença. O arame do varal vibrou como um sino fúnebre, e o pequeno beija-flor, indefeso diante da força invisível, tombou. Não houve tempo par...

Sobre Viver e Sobreviver

Viver é aquela sensação de andar descalço na grama, de sentir o vento bagunçar os cabelos e de olhar para o céu sem pressa, sem medo, sem culpa. É rir de um acaso, se perder em pensamentos bons, enxergar cores onde antes só existia cinza. Sobreviver, por outro lado, é acordar já cansado, contando as horas para algo que nem sabemos o que é. É responder mecanicamente, seguir um caminho sem olhar para os lados, cumprir tarefas sem se perguntar se fazem sentido. Mas quem nunca sobreviveu por necessidade? Às vezes, a vida aperta, as dificuldades pesam, e tudo que conseguimos fazer é apenas continuar. Seguimos porque parar não é opção, porque há responsabilidades, porque há expectativas. O problema é quando esquecemos de que existe algo, além disso. Quando aceitamos o hábito de sobreviver como a única forma de existência, deixamos de procurar aqueles momentos que fazem o coração bater mais forte. Viver não exige perfeição, nem ausência de problemas. Viver exige coragem para reconhecer que, a...

Chuva na vidraça

A chuva cai mansa na vidraça, desenhando caminhos tortos que se encontram, se separam, se perdem. Lá fora, as folhas de outono navegam pela sarjeta como pequenas caravelas, cada uma seguindo seu próprio destino, empurrada pelo vento, pela água, pelo acaso. O telhado responde com seu tamborilar antigo, um som que parece vir de outras épocas, enquanto os pardais fazem algazarra na laranjeira, como se comemorassem a festa que só eles entendem. E então a memória se abre. Recordo quando eu era moleque correndo pelas ruas do bairro, o corpo encharcado e a mente leve, habitada apenas pelas despreocupações da infância. Não havia dores nem sobressaltos; a vida escorria mansa. Os pés batiam no chão e levantavam ondas agitadas, como se eu tivesse o poder de comandar mares inteiros. O sorriso vinha fácil, como se a alegria fosse o estado natural das coisas. Não havia dores. Não havia pressa. Não havia o medo que hoje se esconde nos cantos da vida adulta. A maldade era apenas o dragão das histórias...

Perdão. Peço desculpa, eu errei

  Pedir desculpa sempre me soou como aquele momento em que precisamos admitir que colocamos sal demais na comida: ninguém quer confessar, mas todo mundo percebeu. Em debates acalorados, então, a dificuldade dobra. A gente entra cheio de certezas, argumentos afiados e aquela convicção quase teatral… até perceber que exagerou na dose.   Errar faz parte — é quase um item obrigatório do pacote “ser humano”. O problema é que, quando estamos defendendo nosso ponto de vista com entusiasmo demais, qualquer detalhe vira motivo para levantar a voz, esticar a frase e criar uma divergência que, no fundo, não precisava existir. Depois, olhando com calma, percebemos que algumas palavras saíram tortas, outras vieram fortes demais, e a intenção se perdeu no caminho.   É aí que entra o gesto que quero destacar: o simples, porém poderoso, ato de pedir perdão. Não aquele pedido automático, dito só para encerrar o assunto, mas o sincero, que reconhece que nossas interpretações foram exagera...

Pela janela do ônibus III

  Pela janela do ônibus, o mundo se desenrola em faixas de luz. Os grafites nas paredes contam histórias que ninguém pediu, mas que mesmo assim insistem em existir. Meu olhar se perde além do vidro, onde a cidade pulsa e meus pensamentos caminham mais rápido que o trânsito. No vai ‑ e ‑ vem dos dias, sigo o mesmo caminho, mas cada manhã colore o trajeto de outro jeito. E eu, passageiro do instante, observo a vida acontecer pela moldura breve do espaço coletivo.

São Jorge: guardião das batalhas que nunca cessam

    Desde menino, antes mesmo de entender o peso das palavras ou o sentido das crenças, eu já convivia com a figura imponente de um cavaleiro que parecia vigiar a casa inteira. São Jorge — montado em seu cavalo branco, lança firme, dragão aos pés — era mais do que um santo. Era um guardião silencioso, desses que não precisam falar para que a gente sinta a presença. Na parede da sala, pendurado um pouco torto, vivia um quadro já desbotado pelo tempo. Minha mãe o tratava como relíquia. Ao lado dele, sempre repousava uma palma benta do Domingo de Ramos, guardada com o mesmo cuidado com que se protege um segredo antigo. Ela dizia que aquilo afastava maus olhados, invejas, sombras que às vezes rondam a vida da gente sem pedir licença. E quando o céu escurecia de repente, quando trovões rasgavam o silêncio e os relâmpagos iluminavam nossa casa humilde, lá ia minha mãe — firme, devota, corajosa — fazer sua prece ao guerreiro. Era bonito de ver: enquanto o mundo lá fora parecia ...

O Herói dos Meus Primeiros Dias

    Desde muito jovem, nos bancos escolares ainda cheirando a giz, meu primeiro herói tinha nome e sobrenome: Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Era quase um personagem de fábula para mim. Surgia nos livros, nos murais, nas histórias contadas com solenidade pelos professores. Lendário, quase mítico, pairava acima da realidade como aqueles heróis que a infância insiste em eternizar. Com o tempo, fui descobrindo que a história é cheia de versões, disputas e revisões. Diziam que ele talvez não tivesse barba, que não era alto, que sua participação na conjuração era menor do que os livros sugeriam. Alguns até afirmavam que ele jamais deveria ter sido chamado de herói. Mas nada disso apagou a figura que se formou em mim. O herói que me ensinaram, esse permaneceu. E talvez seja justamente isso que me comove: a ideia de que, mesmo entre incertezas, escolhi guardar dele o que havia de mais luminoso. Não por ingenuidade, mas por necessidade. Em um Brasil que hoje parece t...

A Ganância do Poder e o Preço da Calçada

    Porto Alegre, com suas ruas antigas e suas esquinas cheias de histórias, sempre foi um território disputado entre carros, pedestres, ambulantes, árvores e, claro, o poder público. Mas nos últimos anos, algo mudou no ar — e não foi apenas o cheiro de gasolina cara. Foi a sensação de que cada centímetro de calçada, cada vaga de estacionamento, cada sombra de árvore virou moeda. Os parquímetros chegaram com o discurso conhecido: organizar o trânsito, democratizar o uso das vagas, garantir rotatividade. Em teoria, soa justo. Grandes metrópoles têm espaço cada vez mais reduzido, e administrar esse espaço é parte do papel de qualquer prefeitura. Mas a prática, como sempre, tem suas curvas fechadas. Porque há lugares onde a lógica da cobrança não se sustenta — e todo mundo sabe disso. Próximo a hospitais, por exemplo, onde o fluxo de carros não é capricho, mas necessidade. Onde idosos, pessoas com mobilidade reduzida, famílias aflitas e motoristas ansiosos disputam vagas nã...

Minha Rua

  Minha rua respira comigo.   É um fio de pedra antiga, torta e teimosa, onde o tempo se deita sem pressa.   Nos seus calçamentos irregulares, guardam ‑ se passos que j á n ã o lembro,   mas que ela, sábia e silenciosa, nunca esqueceu. À sombra das árvores frondosas, a vida sempre se ajeitou.   O burburinho das crianças — ah, esse som que nunca envelhece —   mistura-se ao canto dos sabiás, que começam o dia antes do sol   e o terminam quando a noite já se espreguiça.   As caturritas, em sua algazarra verde, fazem das palmeiras um palco,   e minha rua, paciente, aplaude. As velhas vizinhas, eternas guardiãs dos portões,   trocam receitas, memórias, confidências que o vento leva   mas que o coração devolve.   Há um aconchego nesse cotidiano que não se compra,   um prazer simples que se aprende  vivendo. Aqui cresci.   Aqui meus filhos nasceram.   Aqui amei, sonhei, perdi e recomecei.   Os verões mo...