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O Herói dos Meus Primeiros Dias

 

 

Desde muito jovem, nos bancos escolares ainda cheirando a giz, meu primeiro herói tinha nome e sobrenome: Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Era quase um personagem de fábula para mim. Surgia nos livros, nos murais, nas histórias contadas com solenidade pelos professores. Lendário, quase mítico, pairava acima da realidade como aqueles heróis que a infância insiste em eternizar.

Com o tempo, fui descobrindo que a história é cheia de versões, disputas e revisões. Diziam que ele talvez não tivesse barba, que não era alto, que sua participação na conjuração era menor do que os livros sugeriam. Alguns até afirmavam que ele jamais deveria ter sido chamado de herói. Mas nada disso apagou a figura que se formou em mim. O herói que me ensinaram, esse permaneceu.

E talvez seja justamente isso que me comove: a ideia de que, mesmo entre incertezas, escolhi guardar dele o que havia de mais luminoso. Não por ingenuidade, mas por necessidade. Em um Brasil que hoje parece tão devastado por disputas, por desordens políticas, por ideologias que se chocam como ondas em mar revolto, percebo que cada um se apega ao que consegue para não naufragar.

Vejo amigos enfrentando amigos, cada qual defendendo o que acredita ser justo. O contraditório virou arma, e não diálogo. A verdade, muitas vezes, virou bandeira de quem grita mais alto. E nesse cenário, volto aos meus primeiros dias de escola, quando a simplicidade ainda me bastava.

 É por isso que hoje, *21 de abril*, rendo minha homenagem íntima — não ao personagem perfeito, não ao mito incontestável, mas ao símbolo que me foi apresentado quando eu ainda aprendia a escrever meu próprio nome. Tiradentes, para mim, permanece como aquele herói de contos e histórias, o homem que, na minha imaginação infantil, buscava a independência de uma nação enorme e complexa.

Saúdo essa data porque ela me devolve algo raro: a lembrança de um tempo em que acreditar era mais fácil. E talvez seja isso que eu queira preservar. Não o herói oficial, mas o herói que me ensinou a sonhar.

 

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