Desde muito jovem, nos bancos escolares ainda cheirando a giz, meu primeiro herói tinha nome e sobrenome: Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Era quase um personagem de fábula para mim. Surgia nos livros, nos murais, nas histórias contadas com solenidade pelos professores. Lendário, quase mítico, pairava acima da realidade como aqueles heróis que a infância insiste em eternizar.
Com o tempo, fui descobrindo que a história é cheia de versões,
disputas e revisões. Diziam que ele talvez não tivesse barba, que não era alto,
que sua participação na conjuração era menor do que os livros sugeriam. Alguns
até afirmavam que ele jamais deveria ter sido chamado de herói. Mas nada disso
apagou a figura que se formou em mim. O herói que me ensinaram, esse
permaneceu.
E talvez seja justamente isso que me comove: a ideia de que, mesmo entre incertezas, escolhi guardar dele o que havia de mais luminoso. Não por ingenuidade, mas por necessidade. Em um Brasil que hoje parece tão devastado por disputas, por desordens políticas, por ideologias que se chocam como ondas em mar revolto, percebo que cada um se apega ao que consegue para não naufragar.
Vejo amigos enfrentando amigos, cada qual defendendo o que acredita ser
justo. O contraditório virou arma, e não diálogo. A verdade, muitas vezes,
virou bandeira de quem grita mais alto. E nesse cenário, volto aos meus
primeiros dias de escola, quando a simplicidade ainda me bastava.
Saúdo essa data porque ela me devolve algo raro: a lembrança de um tempo em que acreditar era mais fácil. E talvez seja isso que eu queira preservar. Não o herói oficial, mas o herói que me ensinou a sonhar.
Comentários
Postar um comentário
Agradeço sinceramente pela sua leitura e pela presença neste espaço. Sua participação enriquece o diálogo e contribui para a construção de reflexões mais amplas. Seja sempre bem-vindo.