Pular para o conteúdo principal

Onde há Fumaça, há Fogo


 

Os antigos costumavam afirmar, sem a menor sombra de dúvida, que onde há fumaça, há fogo. Era uma dessas verdades populares que dispensavam explicações. Bastava uma suspeita surgir para que encontrasse abrigo em algum comentário de esquina.

Alguém mencionava, com aparente desinteresse:

"Você viu a fulana? Ontem chegou tarde da noite. Parecia feliz demais para quem dizia não ter planos. Claro, posso estar enganado."

Outro, sem perceber que acrescentava lenha ao rumor, completava:

"E eu soube que apareceu acompanhada de um rapaz. Mas não quero julgar ninguém."

Mais adiante, o assunto mudava de endereço.

Comentava-se sobre a esposa do açougueiro que surgira com um vestido novo. Noutro grupo, falava-se do comerciante que trocara de carro de repente. Em cada narrativa havia sempre alguém disposto a encaixar peças inexistentes, transformando coincidências em indícios e impressões em certezas.

Curiosamente, quase ninguém assumia o papel de julgador. Todos se apresentavam apenas como observadores atentos, mensageiros ocasionais de algo que "ouviram dizer". Ainda assim, as histórias cresciam.

Com o tempo, percebi que o velho ditado nem sempre se confirma. Muitas vezes, o fogo não existe. A fumaça, porém, insiste em aparecer. Não nasce das brasas, mas da imaginação humana, alimentada pela curiosidade e conduzida de pessoa em pessoa até adquirir a consistência enganosa da verdade.

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Perdão. Peço desculpa, eu errei

  Pedir desculpa sempre me soou como aquele momento em que precisamos admitir que colocamos sal demais na comida: ninguém quer confessar, mas todo mundo percebeu. Em debates acalorados, então, a dificuldade dobra. A gente entra cheio de certezas, argumentos afiados e aquela convicção quase teatral… até perceber que exagerou na dose.   Errar faz parte — é quase um item obrigatório do pacote “ser humano”. O problema é que, quando estamos defendendo nosso ponto de vista com entusiasmo demais, qualquer detalhe vira motivo para levantar a voz, esticar a frase e criar uma divergência que, no fundo, não precisava existir. Depois, olhando com calma, percebemos que algumas palavras saíram tortas, outras vieram fortes demais, e a intenção se perdeu no caminho.   É aí que entra o gesto que quero destacar: o simples, porém poderoso, ato de pedir perdão. Não aquele pedido automático, dito só para encerrar o assunto, mas o sincero, que reconhece que nossas interpretações foram exagera...

São Jorge: guardião das batalhas que nunca cessam

    Desde menino, antes mesmo de entender o peso das palavras ou o sentido das crenças, eu já convivia com a figura imponente de um cavaleiro que parecia vigiar a casa inteira. São Jorge — montado em seu cavalo branco, lança firme, dragão aos pés — era mais do que um santo. Era um guardião silencioso, desses que não precisam falar para que a gente sinta a presença. Na parede da sala, pendurado um pouco torto, vivia um quadro já desbotado pelo tempo. Minha mãe o tratava como relíquia. Ao lado dele, sempre repousava uma palma benta do Domingo de Ramos, guardada com o mesmo cuidado com que se protege um segredo antigo. Ela dizia que aquilo afastava maus olhados, invejas, sombras que às vezes rondam a vida da gente sem pedir licença. E quando o céu escurecia de repente, quando trovões rasgavam o silêncio e os relâmpagos iluminavam nossa casa humilde, lá ia minha mãe — firme, devota, corajosa — fazer sua prece ao guerreiro. Era bonito de ver: enquanto o mundo lá fora parecia ...

O Relógio

Sempre tivemos uma relação pouco amistosa, eu e ele.  Na infância, era o encarregado de me arrancar da cama para a escola. Nos dias em que alguma moléstia infantil me derrubava, lá estava ele marcando com precisão o horário dos remédios — aqueles de sabor salobro que pareciam castigo. Na adolescência, tivemos alguns momentos de trégua. Quando eu aguardava ansioso para encontrar a namoradinha, a pressa dos ponteiros finalmente jogava a meu favor. Mas, ao final das noitadas com amigos pelos bailes da vida, quando amanhecia, lá estava ele novamente, em parceria com minha mãe:  “Menino, já é hora de acordar. Você não tem vergonha de dormir até essa hora?” O tempo passou, e ele permaneceu. Registrou meu ingresso nos escritórios, definiu turnos, intervalos, almoços. Sempre ele, um perseguidor implacável do tempo.  Hoje, quando a idade enfim me concedeu o justo descanso da aposentadoria, continua marcando — agora com velocidade galáctica — o momento da minha extinção.  Mas,...