Os antigos costumavam afirmar,
sem a menor sombra de dúvida, que onde há fumaça, há fogo. Era uma dessas
verdades populares que dispensavam explicações. Bastava uma suspeita surgir
para que encontrasse abrigo em algum comentário de esquina.
Alguém mencionava, com aparente
desinteresse:
"Você viu a fulana? Ontem
chegou tarde da noite. Parecia feliz demais para quem dizia não ter planos.
Claro, posso estar enganado."
Outro, sem perceber que
acrescentava lenha ao rumor, completava:
"E eu soube que apareceu
acompanhada de um rapaz. Mas não quero julgar ninguém."
Mais adiante, o assunto mudava de
endereço.
Comentava-se sobre a esposa do
açougueiro que surgira com um vestido novo. Noutro grupo, falava-se do
comerciante que trocara de carro de repente. Em cada narrativa havia sempre
alguém disposto a encaixar peças inexistentes, transformando coincidências em
indícios e impressões em certezas.
Curiosamente, quase ninguém
assumia o papel de julgador. Todos se apresentavam apenas como observadores
atentos, mensageiros ocasionais de algo que "ouviram dizer". Ainda
assim, as histórias cresciam.
Com o tempo, percebi que o velho
ditado nem sempre se confirma. Muitas vezes, o fogo não existe. A fumaça,
porém, insiste em aparecer. Não nasce das brasas, mas da imaginação humana,
alimentada pela curiosidade e conduzida de pessoa em pessoa até adquirir a
consistência enganosa da verdade.
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