Durante quarenta anos de serviço
na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, aprendi que a chamada
"Casa do Povo" é muito mais do que um espaço destinado aos debates
políticos. É um retrato vivo da sociedade brasileira, com todas as suas virtudes,
contradições, dramas e, vez ou outra, momentos de puro humor involuntário.
No Palácio Farroupilha, sede do
Parlamento gaúcho, exerci minhas funções na Segurança Legislativa. Entre as
atribuições de proteger parlamentares e zelar pelo patrimônio público, também
acabávamos testemunhando um espetáculo diário de personagens que transitavam
pelos corredores da democracia. Ali circulavam deputados, assessores,
dirigentes de entidades, lideranças comunitárias, jornalistas, estudantes,
visitantes curiosos e pessoas em busca de ajuda para os mais variados
problemas.
Era um universo à parte.
E, como acontece em todo órgão
público, existiam regras de acesso e de convivência. Entre elas, uma bastante
clara: não era permitida a comercialização de produtos ou serviços nas
dependências da Casa.
Mas havia um jovem vendedor que
parecia não se importar muito com esse detalhe.
De tempos em tempos, ele
reaparecia pelos corredores carregando alguns potes de mel. Surgia como quem
não queria nada, oferecendo seu produto aqui e ali, até ser descoberto pela
fiscalização.
Certa vez, um dos agentes da
segurança o abordou e pediu que se retirasse. O garoto, porém, não demonstrou a
menor disposição de obedecer.
Diante da resistência, o servidor
tentou convencê-lo:
— Menino, tu não podes vender
aqui dentro.
O garoto permaneceu firme.
Então o agente resolveu apelar
para outro argumento:
— E outra coisa... Isso aí nem é
mel. Isso é açúcar queimado.
A observação atingiu o menino em
cheio. Seu olhar misturou indignação, surpresa e uma ponta de desespero. Por
alguns segundos, parecia buscar a melhor defesa possível para seu produto.
Quando finalmente respondeu, o
fez com absoluta convicção
— É mel, sim! Eu vi meu pai
fazendo!
Por um instante, fez-se silêncio.
Logo depois, o corredor inteiro
explodiu em gargalhadas.
A sinceridade da resposta era
desarmante. Sem perceber, o pequeno vendedor acabara de entregar, com a mais
pura inocência, aquilo que talvez fosse o segredo industrial da família.
Aquela frase ficou ecoando pelos
corredores durante muito tempo. Sempre que alguém queria brincar com alguma
situação mal explicada, bastava lembrar:
— Mas é verdade... eu vi meu pai
fazendo!
Quanto ao famoso mel, a história
teve um último capítulo. Sensibilizada com a cena, uma alma bondosa presente ao
episódio conseguiu driblar discretamente a vigilância dos agentes e comprou um
dos potes do produto.
Se era mel ou açúcar queimado,
nunca soube ao certo.
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