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Fui ao Vaticano e o Papa Não Estava Lá

Por anos, carreguei comigo a fantasia silenciosa de pisar no Vaticano como quem retorna a um lugar que nunca visitou, mas sempre habitou. Imaginava a Basílica de São Pedro, a Capela Sistina, Michelangelo suspenso em andaimes invisíveis criando o encontro entre Criador e Criatura. Era meu roteiro perfeito. A realidade, porém, improvisou. No Vaticano, vi profetas em mármore, santos que atravessaram séculos, a tumba de Pedro — o primeiro dos papas, o guardião inaugural da fé. Caminhei entre colunas que pareciam sustentar o próprio tempo. Tudo estava lá — menos Ele. O Papa não estava. A expressão popular soou quase irônica: “É como ir a Roma e não ver o Papa.” Pois eu fui. E não vi. Sorri da própria expectativa, tão humana quanto a de qualquer peregrino que chega esperando tocar o sagrado. Mas o sagrado, às vezes, se esconde. Ou tem agenda. Enquanto circulava pela Praça de São Pedro, percebi que a ausência também fala. Ela nos obriga a olhar para o que ficou, não para o que faltou. E o que...

O Ciclo

  O passado sempre chega primeiro, como aquela chuva fina que batia no telhado da casa dos meus pais. Era um tempo em que tudo parecia caber dentro de uma xícara de café quente e de um pão de milho recém-saído do forno. Eu acordava cedo só para sentir o cheiro da manhã. Essas lembranças voltam agora, no presente, enquanto observo a chuva escorrer pela vidraça do meu quarto. O frio que entra pelas frestas não é o mesmo, mas provoca a mesma vontade de recolhimento. A vida adulta me ensinou que o tempo corre mais rápido do que deveria, e que a saudade não é um peso — é um mapa. Cada gota que desliza no vidro parece desenhar o caminho que percorri até aqui. E então penso no futuro. Não como algo distante, mas como uma continuação natural desse ciclo. Imagino um dia em que outras mãos, talvez pequenas como as minhas foram, despertem com o cheiro de um café que eu mesmo preparei. Imagino contar histórias de manhãs nebulosas, de casas simples e de amores que aqueciam mais do que qualquer ...

Símbolos Fora do Lugar

    Outro dia, caminhando pela rua, reparei numa bandeira do Brasil pendurada na sacada de um prédio. Estava ali, meio desbotada, balançando preguiçosa no vento, como quem já viu demais e não se surpreende com mais nada. Pensei que, coitada, talvez estivesse cansada de ser convocada para tudo: protesto, jogo, briga, festa, campanha, churrasco, desabafo. Lembrei do hino também. Aquele que a gente cantava na escola, meio sem entender o que era “lábaro estrelado”, mas cantava. Hoje, o hino aparece em vídeos de internet, remixado, acelerado, usado como trilha sonora para discursos inflamados ou para dancinhas de 15 segundos. E o brasão? Esse então virou figurante. Aparece perdido em repartições públicas, em documentos que ninguém lê e em capas de cadernos escolares que ninguém guarda. Um símbolo que pede respeito, mas recebe olhares apressados, como quem passa por um velho conhecido na rua e finge que não viu. No fim das contas, os símbolos nacionais continuam lá, firmes, tentando...

A Copa Está Somente Iniciando

  Como sempre acontece nessas datas, a memória me puxa pela camisa e me arrasta de volta à infância.  Eu, menino sem grandes expectativas, inventava meu próprio futebol. Catava restos de trapos que minha mãe descartava e, com aquela teimosia criativa que só criança tem, moldava minha bola de meias. Era ela — pesada de pano, leve de sonhos — que eu chutava pelos campinhos da várzea. Cada corrida levantava poeira, cada chute levantava esperança. E não era apenas aquele amontoado de tecido que eu impulsionava, mas todas as ilusões que cabiam no meu peito pequeno. Ali, entre traves improvisadas e gritos de gol inventados, eu jogava mais do que futebol. Jogava meus desejos de futuro, minha vontade de ser grande, minha fé de que o mundo podia caber dentro de um drible. Para aquele menino, a Copa era um portal mágico: bastava o Brasil entrar em campo para que tudo — absolutamente tudo — pudesse dar certo. Hoje, adulto, sentado diante da televisão, percebo que aquele garoto ainda vive...

A Legião Estrangeira e o Vazio em Campo

  A Legião Estrangeira ruiu diante do próprio amadorismo e da desorganização tática, como já era previsível para qualquer brasileiro que não viva de fantasia patriótica. Já era sabido — embora muitos insistiam em negar — que a seleção enviada à Copa do Mundo está longe de representar o que temos de melhor em termos técnicos. O que se viu ontem foi um time acuado, tropeçando nas próprias pernas, incapaz de produzir um único lampejo de criatividade objetiva. O que restou de bom veio de fora das quatro linhas: a empolgação natural da torcida brasileira, sempre fiel, e o hino nacional, desta vez executado com a solenidade que merece, sem virar meme. No campo, porém, reinou o vazio — um silêncio tático que nem o grito das arquibancadas conseguiu preencher. Que venham, então, os guardiões da Cidadela Laferrière . Se não for para vencer, que ao menos sirva para nos lembrar que futebol, como a vida, não perdoa quem entra em campo sem alma.

A Lição Que Ninguém Aprendeu

  Quando a pandemia acabou, todo mundo prometeu virar gente melhor. Durou o quê? Três semanas. Obedecemos: aplaudimos das janelas, fizemos pão, ligamos para pessoas que não lembrávamos de amar. Juramos que, quando tudo passasse, seríamos diferentes — mais gentis, mais atentos, mais humanos. A pandemia foi um espelho enorme colocado diante de nós. Mostrou nossas fragilidades, nossos excessos, nossa incapacidade de lidar com o invisível. Mas, assim que o espelho foi retirado, fingimos que não tínhamos visto nada. É mais confortável assim. O silêncio acabou, e com ele acabou também a memória curta que sempre nos acompanha. Bastou o primeiro sinal de normalidade para que a pressa voltasse, arrogante. No primeiro engarrafamento, já tinha motorista buzinando como se o vírus tivesse sido culpa do pedestre. As máscaras caíram, literalmente e moralmente. A empatia voltou para o mesmo lugar onde guardamos manuais de eletrodomésticos: sabemos que existe, mas ninguém procura. Ainda assim, de v...

Para Minha Namorada

  Há amores que não se explicam — apenas se reconhecem, como quem reencontra um velho caminho. A vida, com suas curvas e desvios, parece brincar de esconder o destino. Um dia, sem aviso, coloca diante de nós alguém que se torna presença. E, quando percebemos, já não sabemos onde termina o acaso e começa o sentido. O amor, descobri, não é feito de promessas nem de grandes gestos. É tecido no cotidiano, nas conversas interrompidas, nos silêncios compartilhados. É o olhar que entende sem precisar de palavras, o toque que acalma sem exigir resposta. Com o tempo, ele deixa de ser fogo e se torna brasa — constante, discreta, mas capaz de aquecer até os dias mais frios. Talvez seja isso que chamamos de permanência. Não a insistência cega, mas a escolha consciente de ficar. Ficar quando seria mais fácil partir, quando o novo parece mais leve. Ficar porque há algo ali que transcende o instante — uma história, uma cumplicidade, uma paz que só se encontra depois de muitas tempestades. Qua...

Ficava Sempre Aos Meus Pés

  Sou de uma geração que era feliz, porque ser feliz era um modo de vida. Tínhamos amigos — muitos ainda estão por aí, outros viraram lembrança, e alguns já se foram deixando apenas a saudade pousada no peito. Mas havia também um amigo secreto. Um amigo de raça indefinida, que mudava de cor conforme o tempo: às vezes preto, às vezes branco, às vezes pardo. Não importava — nunca houve espaço para discriminar. Éramos felizes juntos. Companheiros de tantas jornadas, cúmplices nas alegrias e nas tristezas, nas dores e nos prazeres. Em certos dias, éramos gladiadores invencíveis, duros, quase desumanos na forma como enfrentávamos o mundo. Mas éramos parceiros. Inseparáveis. Conquistamos glórias, subimos pódios, celebramos vitórias como quem celebra a própria vida. E, quando a derrota vinha, chorávamos juntos — lágrimas sinceras, daquelas que lavam a alma. E nas vezes em que a vida me levou para longe, quando não pude estar contigo, você ficou ali, esquecido num canto. Silencioso, pacien...

Aquela Bermuda Lee

  O ano era 1966, às margens do rio Guaíba — uns insistem que é lago, mas eu sigo fiel ao que aprendi na escola: é rio, e ponto final. Essa discussão fica para outro dia. Naquele tempo, as rádios tocavam uma canção italiana sobre um rapaz que amava Beatles e Rolling Stones, e parecia que o mundo inteiro vibrava junto com ela. Mas o que importa aqui é ela: a gloriosa, lendária, épica bermuda de jeans que um dia foi calça. E que calça. Minha infância foi excelente, daquelas que só pobre entende: diversão barata, amigos barulhentos e criatividade sem limites. Mas, no meio dessa simplicidade toda, eu alimentava um sonho ousado, quase um delírio juvenil: vestir uma calça Lee , daquelas “ made in USA”. Coisa de adolescente que enxerga o mundo com olhos maiores que o bolso. A jornada para consegui-la foi longa. Economias, esperas, pequenos obstáculos que pareciam enormes. Até que um dia ela chegou: a tão desejada Lee . Vivi anos dentro dela. Festas, reuniões dançantes, amores. Ela acom...

A Relevância dos Amistosos às Vésperas da Copa

  Às vésperas de uma Copa do Mundo, volta à cena um velho debate: para que servem os amistosos de última hora? A cada ciclo, repete-se o mesmo ritual — jogos protocolares, seleções incompletas, atletas exaustos — e, inevitavelmente, o mesmo desfecho: lesões, cortes e a sensação de que nada daquilo precisava ter acontecido. O que se viu recentemente com a seleção brasileira é um retrato fiel desse problema. Muitos dos convocados chegam da Europa com cargas físicas elevadíssimas, vindos de temporadas longas, intensas e cada vez mais exigentes. O futebol moderno cobra um preço alto: a condição física passou a se sobrepor à técnica, e o corpo, antes instrumento de arte, virou máquina submetida ao limite. Nesse cenário, submeter jogadores desgastados a amistosos de baixa relevância beira o contrassenso. O ganho tático é mínimo, especialmente quando o elenco já deveria ter assimilado os conceitos essenciais muito antes. O que se vê, na prática, é o oposto: improviso, ajustes de última ho...