Pular para o conteúdo principal

Postagens

Maria Fumaça

  Há coisas que a gente não conta para muita gente. Não porque sejam segredos, mas porque moram num lugar tão delicado da memória que dá medo de estragar ao tocar. A Maria Fumaça é uma dessas coisas minhas — dessas que vivem entre o peito e o silêncio. Lembro-me, ainda muito pequeno, de estar dentro de um daqueles vagões de madeira. As imagens são vagas, como fotografias antigas meio desbotadas, mas ainda assim carregadas de afeto. Os bancos forrados de couro, o balanço suave da composição, o trocador passando com seu perfurador de bilhetes — tec, tec, tec — e a paisagem se abrindo pelas janelas como um filme que só existia para quem estivesse ali. Depois veio o trenzinho de lata, no Natal. Colorido, barulhento, meio torto. Mas era meu. E eu o fazia rodar pela casa inteira, como se pudesse recriar, na sala, a emoção que eu ainda não sabia nomear. Acho que foi ali que percebi que algumas paixões não se escolhem — elas simplesmente acontecem, como um sopro. Na adolescência, quando o...

Caleidoscópio

  O mundo começou a girar diante de mim numa tarde qualquer, dessas em que a luz entra pela janela como quem não pede licença. Eu estava distraído, talvez cansado demais para perceber que algo em mim também girava. Foi então que, sem aviso, tudo se tornou um grande caleidoscópio — com suas cores imprevisíveis e seus estilhaços de memória. Cada movimento, por menor que fosse, reorganizava o cenário. As coisas que eu julgava sólidas se desfaziam em fragmentos luminosos, e outras, que eu nunca tinha notado, surgiam com uma nitidez quase insolente. Era como se o mundo insistisse em me mostrar que nada permanece igual por muito tempo. Enquanto observava esse turbilhão íntimo, percebi que não era apenas o mundo que mudava. Eu também me via multiplicado em versões que se contradiziam e se completavam. Havia o eu que acreditava saber de tudo, o que fingia não sentir nada, o que sonhava alto demais, e aquele que só queria um pouco de silêncio. Todos coexistiam ali, refletidos como espelhos ...

Eu Vi o Papa

Julho de 1980 amanheceu diferente em Porto dos Casais. Havia um rumor no ar, desses que fazem a cidade inteira respirar mais devagar, como se cada esquina estivesse à espera de algo que não se repete. O frio gaúcho parecia menos áspero naquele dia, talvez por causa da expectativa, talvez porque todo mundo carregava um brilho nos olhos. O Papa João Paulo II vinha nos visitar, e isso, para nós, era quase como ver a história atravessar a rua. As pessoas se amontoavam nas calçadas, enroladas em cachecóis, segurando bandeirinhas, rezando baixinho ou apenas sorrindo. E, claro, o coro que ecoava por toda parte — “ucho, ucho, ucho, o Papa é gaúcho ” — dava um tom de festa a um momento que, no fundo, era de pura devoção. Eu, jovem e cheio de curiosidade pela vida, caminhava entre aquela multidão como quem tenta guardar tudo num só olhar. A fé, para mim, tinha começado muito antes. Lembro-me do dia em que o Papa João XXIII morreu. Eu tinha doze anos. A escola, sempre barulhenta, ficou to...

O Vendedor de Bilhetes

  Na frente do Mercado Público, entre o cheiro de peixe fresco e o barulho dos ônibus que nunca chegam no horário, ele está lá. Camisa surrada, boné desbotado, um maço de bilhetes na mão e esperança no bolso. É o vendedor de sorte - ou, como ele mesmo diz, "o distribuidor de sonhos".  Seu nome é Afrânio, mas poucos perguntam. Para a maioria, é só "o cara da loteria". Está ali todos os dias, faça sol, faça chuva, faça greve. Com um sorriso que desafia estatísticas, oferece bilhetes como quem oferece milagres. -  Vai que hoje é teu dia, chefe!- diz, com a convicção de quem já viu gente ganhar e desaparecer, e muito mais gente perder e continuar tentando. Afrânio conhece os fregueses pelo andar. Sabe quem joga por superstição, quem joga por desespero, quem joga por hábito. E sabe também quem só para pra conversar, porque às vezes o bilhete é só desculpa pra um papo rápido sobre futebol, política ou o preço do tomate. Ele mesmo nunca ganhou. Diz que sorte não gosta de q...

Saudação a João Fonseca

  Sempre acreditei que o tênis era um território reservado aos ricos: uniformes alvíssimos, gestos contidos, clubes onde o silêncio valia mais que qualquer aplauso. Para nós, que vivíamos do lado de fora da cerca, restava a fresta na parede — aquela pequena abertura por onde víamos a bola amarela riscar o ar como um cometa, levantar poeira do saibro e desaparecer no brilho do sol. Era um espetáculo distante, quase proibido, habitado por figuras de postura nobre, como se o esporte fosse um salão aristocrático ao ar livre. Mas o tempo, esse grande desarrumador de certezas, tratou de mexer nas peças. A sociedade mudou, os muros ficaram mais baixos, e um dia surgiu um menino magricela lá do Sul, de sorriso fácil e cabelos desgrenhados. Guga — assim, simples, íntimo, como se já fosse da família. Ele fez o Brasil descobrir que também podia vibrar com uma raquete na mão. Transformou o país em arquibancada, em torcida, em sonho. O tênis deixou de ser exclusividade dos abastados e virou ass...

A Vacina

  Desde muito cedo me ensinaram que vacina era um “mal necessário”. Não havia escolha, não havia debate. Havia fila. Uma fila comprida no pátio da escola primária, onde crianças inquietas esperavam por um instrumento de metal que parecia mais uma geringonça de ficção científica do que algo feito para proteger. Nada de agulhas delicadas: era ferro, pressão e um líquido misterioso que doía, deixava marca, dava febre. E a gente seguia brincando, porque criança não tem tempo para drama prolongado. Sobrevivemos. Crescemos. E aqui estou, na velhice, assistindo ao país transformar a vacina em campo de batalha. É curioso: aquilo que antes era só rotina virou bandeira, virou trincheira. Não me oponho a quem pensa diferente — cada um sabe de si — mas ainda me soa estranho ouvir que vacina faz mal, como se décadas de ciência coubessem numa frase de rede social. O Brasil, com seus 213,4 milhões de especialistas instantâneos, virou um grande laboratório de debates intermináveis. Não sobre vír...

A Pressa

  A pressa sempre foi uma velha conhecida nossa. Na juventude, ela nos empurra pelas ruas como um vento impaciente, dizendo que o mundo é logo ali e que tudo precisa ser vivido antes que o sol se ponha. E nós acreditamos. Corremos. Pulamos fogueiras. Cantamos alto nas noites frias de São João, quando o “Padroeiro das Festas Juninas” parece sorrir para cada balão que sobe, teimoso, rumo ao céu.   Naquele tempo, a vida tinha cheiro de pinhão assado e quentão fumegante. A fogueira ardia como se fosse eterna, e nós também achávamos que éramos. As cantigas ecoavam sem pudor — “cai, cai balão, cai, cai balão aqui na minha mão” — e tudo parecia possível, até pisar em madeiras em brasas. A alegria era simples, imediata, quase infantil.   Mas o universo, esse velho relojoeiro, não para. E nós, que antes corríamos, começamos a caminhar. Depois, a andar devagar. E um dia percebemos que a pressa mudou de lado: já não é ela que nos empurra; somos nós que tentamos segurá-la pelo ...

O Inquilino Invisível

    Toda cidade pequena tem uma casa que ninguém jura ter medo, mas também ninguém entra depois do pôr do sol. Aqui, é a mansão da rua da ladeira. Um casarão antigo, de madeira escura, que parece ter sido construído não para abrigar gente, mas para guardar segredos. E guarda bem. À noite, os corredores estalam como quem respira, as janelas observam sem pudor, e o silêncio… o silêncio nunca é completo. Os mais velhos contam que ali viveu um barão — severo, porém “justo”, como gostam de dizer, talvez para aliviar a própria consciência. A esposa dele, delicada, criou três filhos com esmero: duas moças de modos finos e um rapaz que falava baixo e andava sempre alinhado. Mas, veja bem, a história que corre por aqui não é sobre eles. Nem sobre os escravizados que trabalharam, sofreram e sobreviveram naquele chão. É sobre outra presença. Uma que não aparece em livro de história. Dizem que, de tempos em tempos, algo sumia na casa. Nada valioso: comida, ferramentas, pequenos obje...

A Que Vai Com as Outras

  Ela nunca soube exatamente quando começou a andar no passo dos outros. Um dia era o chá de boldo recomendado pela vizinha; no outro, o lilás decretado pela colega como “cor do ano”. E lá ia ela, engolindo infusões amargas e vestindo tons que não eram seus, só para não destoar. Seguia porque era fácil, porque decidir cansava, porque as vozes alheias pareciam sempre mais seguras que suas próprias dúvidas. No grupo da família, bastou alguém dizer que dormir de meia atraía boas energias para que ela, que odiava pés abafados, fosse para a cama parecendo um pinguim — e ainda acordasse elogiando a experiência. O mais curioso é que ela não era tola; só era… maleável. Flexível demais. Daquelas pessoas que preferem o conforto do coro ao risco de cantar uma nota sozinha. Até que, no trabalho, pediram que ela escolhesse entre dois projetos. Sem plateia, sem opinião terceirizada, sem manual de instruções. Ela travou. O mundo parou. O universo aguardou. E então ela respirou fundo e escol...

A Fé que Mora no Silêncio

  Falar de fé sempre parece simples até que a gente tenta explicar. É como tentar descrever o vento: você sente, mas não pega; percebe, mas não mede. A fé é esse sopro que passa por dentro da gente sem pedir licença, mas também sem fazer alarde. Cada pessoa carrega a sua como pode. Uns a vestem como armadura, outros a guardam dobradinha no bolso, para usar só quando o mundo pesa demais. Há quem a proclame em voz alta, e há quem a viva em silêncio, quase escondida, como um segredo precioso que não se divide com qualquer um. O curioso é que a fé não exige compreensão. Ela não precisa ser lógica, nem coerente, nem comprovada. Ela apenas é. E talvez seja justamente isso que a torna tão íntima: não cabe em palavras, não se encaixa em definições, não se explica — se sente. E, no fundo, essa fé pequena é enorme. Porque é ela que sustenta a gente quando o resto falha. É ela que nos lembra que viver não é só enfrentar tempestades, mas também reconhecer os pequenos abrigos que aparecem...