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Divergência de Opiniões

  Já manifestei meu ponto de vista sobre essa questão em outra crônica — e, como sempre, descobri que opinião é igual a chute de atacante nervoso: cada um dá o seu, quase nunca acerta, mas insiste em repetir. O direito ao contraditório, dizem, enriquece debates. Enriquecer até enriquece, mas também cansa, irrita e às vezes dá vontade de pedir cartão vermelho para certos argumentos. Desenvolver raciocínio sobre determinados assuntos põe em xeque nossa capacidade de argumentação. E põe mesmo: há fatos tão visíveis, tão óbvios, tão escancarados, que só não vê quem não quer — ou quem prefere acreditar na teoria da conspiração da semana. No futebol, então, virou moda contestar tudo: a intervenção do VAR, a decisão do juiz, o vento que soprou a bola para a esquerda, e até a sombra do bandeirinha, que certamente estava ali com intenções obscuras. Com a avalanche midiática, os interesses extracampo se multiplicam como comentaristas em mesa-redonda: cada um com sua verdade absoluta, sua int...

Bilhete Premiado

  Sempre desconfiei dessa expressão “jogo de azar”. Há algo de ambíguo nela, quase irônico. Afinal, se é jogo, deveria ser de sorte. Quando compro um bilhete, espero o mínimo: que esteja premiado. Não é otimismo, é lógica. Se eu pago por um pedaço de papel colorido, quero que ele venha com algum brilho, nem que seja um prêmio de consolação, tipo “parabéns, você ganhou o direito de continuar acreditando”. Mas o bilhete, esse traidor silencioso, quase sempre devolve apenas um “tente outra vez”, que é a forma educada de dizer “perdeu, campeão”. O problema é que essa expectativa inocente esconde um outro lado, bem menos romântico. O jogo tem um charme perigoso. Ele se apresenta como quem não quer nada, piscando para você com aquele olhar de “vem, é rapidinho”. E aí entram os apostadores — figuras fascinantes, quase personagens de novela. Alguns são estrategistas, outros são poetas da esperança, mas a maioria é formada por otimistas profissionais, gente que acredita que a vida está pres...

Divisor de Emoções

A alegria e a tristeza sempre foram coadjuvantes das grandes decisões. Nas arenas tingidas por bandeiras multicoloridas e vestimentas exóticas, ao som de cânticos e da vibração incessante das torcidas, o estádio pulsa como um organismo vivo. Dentro das quatro linhas, corações e emoções transbordam. Esquemas táticos desenham trajetórias invisíveis, antecipando o roteiro que levará à glória ou à desilusão do objetivo não alcançado. Nesse universo onde sorrisos e lágrimas se confundem, sonhos se concretizam e esperanças se desfazem em prantos. Assim foi a primeira rodada da Copa do Mundo de 2026. Brasil x Japão silenciou duas nações por longos minutos: uma acostumada às grandes conquistas, outra resiliente, disciplinada, moldada pela frieza característica das tradições orientais. Mais adiante, um Paraguai guerreiro evocou os grandes feitos de seu herói histórico — Solano López, na Guerra do Paraguai — para resistir além do esperado. E, ao anoitecer, junto às colinas mexicanas, a e...

Figa, arruda, trevo e ferradura

  Rapaz, hoje o Brasil entra em campo e o país inteiro já acordou com aquela sensação de que se a seleção ganhar, a semana melhora; se perder, a culpa é do técnico, do VAR e do cara que lavou a camisa da sorte fora de hora.   A mesa do bar já tá montada: figa pendurada no chaveiro, arruda atrás da orelha, trevo amassado na carteira, ferradura na porta (que ninguém sabe como foi parar ali, mas ninguém tira pra não dar azar).   O garçom passa perguntando se alguém quer mais uma, mas a verdade é que ninguém tá bebendo: estão rezando, cada um no seu estilo. Tem o torcedor que faz promessa, o que bate na madeira, o que não troca de lugar na cadeira desde 2002, e o que jura que se o Brasil fizer gol ele beija o garçom. Do outro lado, o Japão. Time ajeitado, disciplinado, que treina como se fosse prova de vestibular. Mas também tem um pezinho no Brasil: Zico virou praticamente santo padroeiro do futebol nipônico, Nelson Yoshimura abriu caminho lá em 67, e Ruy Ramos vir...

Saudade, da Temperoma

É sabido, desde os primórdios da humanidade, que a alimentação sempre foi uma necessidade vital dos seres humanos. Os homens das cavernas já enfrentavam desafios imensos para subsistir naqueles tempos rústicos e implacáveis. Bem mais recentemente, no tempo dos meus avós, as receitas passadas de pais para filhos cobriam as mesas com fartura. Minha mãe foi uma excelente cozinheira. Produzia maravilhas no seu fogão à lenha, com temperos de aromas inconfundíveis. Nessa miscelânia de sabores e aromas chegamos aos dias de hoje. E há um prato impossível de não constar nos cardápios modernos: a pizza . Sempre fui consumidor ávido dessa delícia — para muitos, de origem italiana, só que não. Em muitos momentos, alguns especiais, é a maneira de festejar ou brindar, como queiram; essa massa recheada de essências faz a felicidade geral e transforma qualquer encontro simples em celebração. Foram muitos locais, alguns marcantes. A “Pizzaria Chuvisco”, ali na Cristóvão, de pizza com sabor inconfundíve...

O Mundo ao Avesso

    Nos dias atuais, é difícil compreender certas atitudes humanas. Caminhando pelas ruas do meu bairro, deparei-me com uma moça de uns vinte anos. A jovem, de curvas marcantes — impossível não notar — tentava atravessar a avenida movimentada. O fluxo intenso de veículos, impiedoso como a própria cidade, não lhe permitia avançar. Agitava-se, inquieta, como se o mundo inteiro a empurrasse para o outro lado da rua. Talvez fosse o trabalho que não perdoa atrasos, o ônibus que não espera, o medo de perder o dia, o emprego, a chance. Talvez fosse apenas o hábito de viver correndo — esse vício social que nos ensinaram desde cedo, como se a vida fosse uma linha de chegada que nunca alcançamos Parei para observar a cena, que me devolveu a um pensamento que sempre me assombra: por que tanta pressa? Para onde vão? Por que vão? Estão sempre atrasados, ou apenas acreditam que estão? Enquanto eu observava — não por indiferença, mas porque já aprendi que a pressa não me serve — a mo...

Hoje o Dia Acordou Mais Triste

  A evolução da espécie humana nos trouxe conquistas extraordinárias. Todos os dias, as mídias anunciam descobertas nas áreas da medicina, da tecnologia e da alimentação. Mas por trás de cada avanço há um preço silencioso: a exploração incessante dos recursos naturais. Manipulamos elementos essenciais do planeta como se fossem infinitos. Desestruturamos camadas geológicas, alteramos o clima, comprometemos rios, mares e florestas. A natureza exuberante — como a que ainda resiste na Amazônia brasileira — sofre as consequências da pressa humana em expandir-se, consumir e dominar. Criamos um ritmo de uso dos recursos que não acompanha o tempo de regeneração da Terra, e o resultado é a degradação crescente do solo, da água, do ar e da vida. Hoje, o dia amanheceu triste.   A América do Sul despertou sob o espectro da dor.   A natureza, indiferente às estruturas humanas e aos estudos que tentam prever seus movimentos, mostrou mais uma vez que não há tecnologia capaz de conter su...

Noite de São João

São João, celebrado em 24 de junho, sempre foi mais do que uma simples data no calendário. Lembro da expectativa que tomava conta da semana anterior aos festejos. Ainda garoto, saíamos em busca de madeira para montar a fogueira — quanto mais alta, mais parecia refletir nossa própria ideia de grandiosidade. Juntávamos taquaras, porque sabíamos que, ao tocarem o fogo, estourariam como rojões, busca-pés e outros pequenos artefatos que hoje, com a consciência ecológica e de segurança, já não são recomendáveis. Mas naquele tempo fazíamos coisas temerárias sem pensar duas vezes: colocar rojões sob latas para vê-las explodir, dilaceradas pelo impacto, era diversão garantida. Também fazíamos balões iluminados — hoje, nem pensar — e pendurávamos bandeirolas coloridas em longas cordas que cruzavam o pátio. No centro, cercada por pneus velhos, erguia-se ela: a fogueira, imponente, silenciosa, esperando o momento de ser acesa. Sobre as mesas, um banquete típico: pinhão, amendoim, rapadura, pipoca ...

Por que prefiro Pelé

  Sou de uma geração que viu o futebol arte nascer e crescer antes que a tecnologia o engolisse. Vi o jogo quando ainda era jogo — quando a bola era protagonista e não um dado estatístico, quando o drible era gesto espontâneo e não coreografia ensaiada. Naquele tempo, a lógica era simples e sábia: a bola deve correr mais que o jogador. E corria. Corria leve, obediente, guiada por pés que pareciam conversar com ela. Não se precisava olhar para baixo para dominá-la; bastava senti-la. Técnica era tato, era intimidade. O atleta sabia onde estava no campo como quem conhece a própria casa no escuro. Havia espaço para a invenção, para o improviso, para o lampejo que ninguém previa — nem o próprio autor. Hoje, não nego, há grandes jogadores. Há talento, há genialidade, há Messi — um maestro moderno, dono de uma visão espacial quase sobrenatural. Mas há também um futebol moldado em laboratório, milimetricamente planejado, onde cada passo, cada metro quadrado, cada movimento parece parte de ...

Quando o Que Parece Não É

    Estamos concluindo a primeira etapa classificatória desta Copa do Mundo espalhada por três países — por quê, exatamente, ainda não sei. Talvez um dia eu entenda, talvez não. Por enquanto, o que me importa é ajustar meu ponto de vista de leigo: aquele que, ou já está velho demais para absorver os novos conceitos, ou simplesmente não vê sentido nas mudanças que não acrescentam nada ao que sempre existiu. Afinal, a bola continua sendo uma bola — agora automatizada, sensível a estímulos, quase um ser vivo. O objetivo também permanece o mesmo: duas traves retangulares, separadas por alguns metros, onde atletas de equipes adversárias tentam fazer a bola passar. Simples. Ou pelo menos era. Hoje, o futebol virou um laboratório. Acrescentaram tempo de reposição, punições por gestos, intervalos para hidratação, e mais uma dezena de critérios que ninguém pediu. E claro, o VAR — essa invenção que prometia justiça, mas que mais atrapalha do que corrige. Frações imperceptíveis agora...