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Quem Lembra do Trocador?

  Voltemos aos anos 1960, quando carro era privilégio de poucos e viajar de ônibus era, de fato, viajar. Ir de Ipanema ao Centro de Porto Alegre podia levar duas horas. Para quem não viveu essas aventuras coletivas, vale decifrar o ritual. A distância era grande, a velocidade modesta e, não raro, o ônibus precisava reabastecer no caminho para completar o trajeto. A ligação entre a longínqua Ponta Grossa e o Centro exigia superar uma série de obstáculos viários, especialmente a subida — ou descida — da Pedra Redonda, que parecia testar a coragem do motor, a fé dos passageiros e a habilidade do motorista em evitar que o ônibus voltasse de ré. Só depois desse desafio chegávamos ao ponto onde se fazia a troca de ônibus — então chamada de “baldeação” — no D.A.T.C., o Departamento Autônomo de Transportes Coletivo, criado em 1947 e situado no bairro Tristeza. (1) Os ônibus eram personagens por si só: o Papa-fila (FNM), o Renault, o Available , o Mercedes-Benz. Cada modelo tinha se...

O Outro Ipanema

  Quando cheguei, ainda pequeno, Ipanema era um balneário. As casas, muitas em estilo bangalô de madeira, davam ao lugar um charme que hoje só existe nas fotografias desbotadas. O ano era 1955. As ruas e avenidas tinham nomenclaturas pitorescas, homenagens aos bairros cariocas: Rua da Gávea, Flamengo, Leme, Leblon… Viver ali naquele tempo era ser considerado “nativo”, pois a maioria das residências eram casas de veraneio de famílias abastadas e tradicionais da sociedade porto-alegrense. Cresci entre o Guaíba — ainda rio — e ruas arborizadas, com pitangueiras que perfumavam o ar e sabiás que anunciavam o alvorecer. No verão, as areias escaldantes nos empurravam para o refúgio dos banhos de praia, sempre próximos à Taba, tradicional bar e restaurante da orla, ponto de encontros, conversas e namoros. Naquele mesmo bairro havia uma associação que reunia nomes prestigiados da sociedade: velejadores, tenistas, jogadores de basquete, vôlei, bocha e bolão. Alguns chegaram a se destac...

Ausência

  Dizem que ele sumiu. Ninguém sabe ao certo quando começou o desaparecimento, mas alguns analistas em convivência — garantem que foi logo depois de perceber que suas mensagens no grupo recebiam a mesma atenção dedicada aos termos de uso do WhatsApp: absolutamente nenhuma Ele, pobre criatura otimista, tentou interpretar o fenômeno. Imaginou que o mundo estivesse ocupado demais, ou que o sinal tivesse caído, ou que todos os seus amigos tivessem sumido. Mas não: estavam todos lá, vivíssimos, hiperativos, enviando figurinhas, memes reciclados, vídeos de bom dia com flores animadas e correntes motivacionais que prometem riqueza se você encaminhar para 12 pessoas. Só não estavam… com ele. A ausência, portanto, não era um acidente. Com o tempo, ele percebeu que o silêncio digital tem uma habilidade extraordinária: não apenas isola, mas também apaga. A cada dia sem resposta, sentia-se como um arquivo sendo arrastado para a lixeira — e sem direito a backup. Mas eis que, num raro momento...

Ser Avós

  A data chega suave, como quem pousa os pés na memória. É um dia comum, mas traz um brilho que só o tempo entende. Ser avós é renascer para o amor — um amor que não cobra, não exige, não pesa. É ser pais outra vez, porém com asas soltas e o coração desarmado. Ser avós é desfazer regras com delicadeza, abrir frestas no cotidiano, permitir que a vida escorra leve. É oferecer chocolate na hora proibida, refrigerante entre as refeições, e transformar pequenos desvios em grandes aventuras. É pular compromissos, inventar fugas, caminhar sem destino para lugar nenhum — e ainda assim chegar sempre ao afeto. Há uma arte nisso: a arte de amar sem moldura, sem manual, sem medo. Somos assim — todos somos assim — guiados por um instinto que não calcula consequências, apenas multiplica ternuras. Ser avós é ser abrigo, é ser conselho, é ser porto onde o tempo repousa. E quando o dia é lembrado, o coração se estreita. A distância às vezes dói, e então voltamos aos cenários antigos, às exp...

Dia do Escritor

  Hoje decidi mudar o tema da crônica. A data merece destaque: é Dia do Escritor, e não poderia deixar passar em branco algo que, de certa forma, atravessa meu caminho. O calendário vive cheio de comemorações — santos, efemérides, homenagens históricas, lembranças afetivas e datas criadas apenas para movimentar o comércio. Algumas, porém, carregam uma ternura essencial, como o Dia das Mães. Outras celebram figuras que moldaram nossa cultura. Entre minhas relações, tenho amigos que cultivam a palavra com talento, e escritores que admiro profundamente, daqueles que leio tudo o que publicam. Ler é hábito que trago desde a juventude. Para meus filhos, os presentes preferidos sempre foram vales ‑ livro; cresceram cercados de hist ó rias, capas coloridas e personagens que atravessam gera çõ es: Dom Quixote, O Pequeno Pr í ncipe, os contos dos Grimm, Gulliver e tantos outros. Nos tempos atuais, fiquei incrédulo ao ver que alguns desses clássicos vêm sendo contestados por supostos conteú...

O Smartphone

  O celular foi sucedido por um objeto ainda mais ambicioso: o smartphone , essa máquina extraordinária que redesenhou a comunicação humana e acelerou o que antes era lento, trabalhoso e cheio de ruídos. Nos anos 90, surgiu com pompa — grande, pesado, de sinal caprichoso — mas carregava um brilho social inegável. Ter um celular era ostentar pertencimento ao grupo dos privilegiados. Era mais símbolo do que ferramenta. Com o tempo, porém, o objeto cresceu em inteligência. Ganhou funções, ampliou alcance, atravessou fronteiras. De repente, notícias de um terremoto na Ásia chegavam em segundos; resultados esportivos eram instantâneos; o mundo cabia na palma da mão. O aparelho deixou de ser acessório e virou extensão do corpo. Quase o vestimos. A tecnologia avançou tanto que o nome precisou mudar: smartphone . Agora ele digita, fotografa, grava, envia, recebe, armazena, vigia — e, ironicamente, ainda é possível telefonar, como nos tempos do velho aparelho de Graham Bell. O que não pre...

Ela Voltou

  A enchente retorna, devastadora, deixando danos irreparáveis e enclausurando comunidades inteiras. O Sul novamente submerso, famílias ilhadas, cidades paralisadas — E nós, espectadores de uma tragédia repetida, retomamos o velho ritual: indignação, acusações, promessas, discursos. As críticas surgem com tom de terra arrasada, como se tudo fosse culpa exclusiva da política. Sim, há omissão, negligência e falta de planejamento. Há gestores que tratam rios como ornamento e só lembram da Defesa Civil quando a água invade o gabinete. Mas reduzir tudo à incompetência pública é confortável demais — e nos absolve. A verdade incômoda é outra: o planeta está cobrando a conta. Nenhum órgão meteorológico controla uma atmosfera em desequilíbrio. Nenhum radar impede chuvas torrenciais. Nenhuma barragem segura a fúria de encostas desmatadas e rios estrangulados por ocupações irresponsáveis. Seguimos repetindo o erro de tratar a natureza como inimiga, quando ela apenas responde ao que fizemos ...

A Vírgula

  Usada para listar coisas, ações ou características que possuem a mesma função sintática, é proibida quando interrompe a conexão natural entre os termos da frase. Até aqui tudo certo — definições gramaticais nos compêndios escolares e dicionários. Mas o que pretendo escrever é sobre os efeitos desse pequeno sinal de pontuação. Na escola eu era um aluno mediano — não por falta de esforço, mas porque a vírgula já me perseguia desde cedo. Ler e escrever não eram minhas maiores habilidades, embora eu tivesse uma fome literária digna de personagem de romance. Gostava de livros, de folhear páginas, de cheirar papel (sim, eu era esse tipo de criança). Isso acabou me levando ao curso técnico de artes gráficas: virei tipógrafo, linotipista, profissional da palavra — mas apenas da palavra impressa, porque a escrita, essa danada, continuava me olhando torto. Mas vamos em frente. São tantas as vezes em que nos deparamos com frases construídas em ritmo acelerado, onde o atropelo da fala conj...

A Copa Acabou

  A Copa acabou — e, como toda grande festa, deixou aquele rastro de barulho, lembranças e pequenas irritações que só quem ficou do lado de fora das quatro linhas percebe. O campo se fecha, os refletores se apagam, mas nós, espectadores, continuamos remoendo o que realmente nos marcou. E não estou falando do campeão, nem do gol perdido aos 47 do segundo tempo. Falo da Copa vista por quem não correu, não suou, não levou cartão — e, claro, não atuou como VAR. Antes mesmo de a bola rolar, já havia espetáculo. O cerimonial das partidas se transformou em um show à parte: o desfile impecável dos atletas, as bandeiras tremulando com precisão quase coreográfica, os hinos ecoando em estádios lotados, cada detalhe milimetricamente organizado para emocionar. Era como se cada jogo começasse com uma celebração própria, um ritual de beleza rara que preparava o público para o drama que viria depois. E, no meio disso tudo, a interação das torcidas caracterizadas — um mosaico de cores, sotaques...

Ter Amigo

  Ter amigo é uma dessas tarefas da vida que não cabe em definição única. Podemos nomeá-los com mil adjetivos: tem os que abraçam forte, os que choram junto, os solidários, os chatos, os que chegam de repente, os que dividem tudo, os brigões, os irônicos. Cada um com seu ritmo, sua maneira de existir. E, mesmo tão diferentes, todos são amigos. Ter amigos é construir escadas para alcançar espaços inimagináveis. É erguer pontes que atravessam o tempo, preservando identidades, histórias e afetos. É cultivar relações duradouras, mesmo quando a vida muda tudo de lugar. Eu tenho muitos amigos — cada um com seu temperamento — e hoje eu celebro todos eles. Não pelo número no calendário, mas pelo significado que esse dia carrega. Hoje, muitas frases serão lembradas, muitas histórias revisitadas, muitas memórias ternas dos que partiram, deixando seu legado, sua luz e sua trajetória escrita em nossos corações. Recordar os risos e as lágrimas, os encontros e desencontros, as reconciliações, é ...