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Postagens

A Máquina de Escrever

    Todos os dias, quando me sento diante do teclado do computador, sinto o eco distante da velha máquina de escrever que marcou o início da minha caminhada. É curioso como certas memórias não se apagam; apenas mudam de forma, como se fossem letras migrando de um papel amarelado para uma tela iluminada. Era 1963, e eu ainda um menino de escola técnica, tentando descobrir que futuro cabia nas minhas mãos. A vida em casa era simples, apertada, mas nunca pequena. Minha mãe, lavadeira, carregava nos braços o peso das roupas e o peso dos sonhos que tinha para mim. Meu pai, consertador de sapatos, cuidava dos passos de tanta gente importante, enquanto sustentava os meus. Naquele tempo, cada tostão tinha destino certo. E foi juntando tostões — aqueles que minha mãe economizava — que ela me matriculou no curso de datilografia, lá na escola profissionalizante do bairro. Eu ainda nem sabia, mas aquele gesto era uma espécie de empurrão silencioso para o mundo. Lembro-me bem dos...

Coincidência… ou algo mais

  Entre as décadas de 1940 e 1960, existiu um personagem chamado Amigo da Onça , criado pelo cartunista Péricles. Ao lembrar dessa figura, vem à mente seu humor satírico, irônico e sempre crítico — mestre em provocar aquela sensação incômoda de “será que isso foi coincidência mesmo?” E quando observamos certos sorteios — em especial os que envolvem a disputa nacional — é difícil não perceber um sopro desse espírito irônico pairando no ar. Clássicos regionais, rivalidades históricas, confrontos que parecem escritos por roteiristas… tudo isso alimenta a imaginação. Tecnicamente, sorteios são eventos aleatórios.   Mas o cérebro humano não gosta de aleatoriedade pura — ele busca padrões, narrativas, explicações. Quando o sorteio coloca frente a frente rivais tradicionais, caminhos que parecem “desenhados” para uma final específica, confrontos que inflamam audiência e mídia, a matemática vira coadjuvante e o imaginário popular assume o protagonismo. Não é que exista f...

A Arte de Não Conversar

    Andamos tão apressados, tão ocupados em cumprir metas, que esquecemos das pequenas gentilezas — aquelas que antes costuravam o tecido das relações humanas com pontos firmes e delicados.   Hoje, conversamos por atalhos. A fala virou ícone. As palavras, coitadas, foram reduzidas a símbolos que exigem quase um curso de arqueologia para serem decifrados. Às vezes me sinto diante de uma escrita cuneiforme moderna, tentando entender o que significa aquele conjunto de carinhas, corações, foguinhos e mãos que apontam para todos os lados.   Conversar com os mais jovens, então, é uma aventura antropológica, quase um exercício de resistência. Eles falam rápido, digitam mais rápido ainda, e respondem com uma economia de vocábulos que faria qualquer gramático chorar. Um “kk”, um “blz”, ou pior: um emoji que você não sabe se significa aprovação, sarcasmo ou pedido de socorro. E eu fico pensando: estamos perdendo a capacidade de comunicação verbal ou apenas terceiriza...

O Varredor Filósofo

  Com seu uniforme laranja e vassoura gasta, Seu Orlando varre as ruas do Centro como quem medita. Não reclama do lixo — entende que ele é parte da cidade, como o barulho, o cheiro e a pressa. Varre com ritmo, com respeito, com filosofia. Já foi professor, já foi bancário, já foi esquecido. Hoje, é guardião da calçada. Às vezes, enquanto limpa a sujeira dos outros, recita trechos de Drummond: “No meio do caminho tinha uma pedra...”   “...e no meio da calçada, tinha um papel de bala, uma bituca, um silêncio”. Os versos se misturam ao som dos passos apressados, ao chiado dos ônibus, ao murmúrio dos vendedores. Poucos escutam. Mas ele segue, como quem planta palavras no asfalto. Os jovens o ignoram, os adultos o evitam. Alguns desviam como se a vassoura fosse ameaça. Outros jogam lixo no chão logo após ele passar. Seu Orlando não se ofende. Ele entende que a pressa cega, e que o chão é o último lugar onde se olha. Mas uma vez por semana, uma menina chamada Luana — s...

Os Santinhos da Web

    Diariamente recebo centenas. É um verdadeiro congestionamento de “Santos” atravessando minha tela, disputando espaço como se o smartphone fosse uma procissão infinita. Eles chegam sem pedir licença, empurrando-se uns aos outros, obstruindo minha capacidade de entender os limites da fé — se é que ainda existem limites quando o assunto é corrente religiosa digital. Entre uma imagem de Santo Antônio borrada e uma Nossa Senhora em resolução duvidosa, surgem também as mensagens motivacionais. Todas carregam doses generosas de amor, esperança e justiça, como se fossem vitaminas espirituais prescritas para o bom funcionamento da alma. “Bom dia!”, “Deus te abençoe!”, “Que Nossa Senhora Mãe dos Homens ilumine seu dia!” — incentivos diários para que eu cumpra minha jornada com a serenidade de um monge tibetano. São tantas manifestações que minha caixa postal transborda. Entope. Fica saturada de pequenos “cookies 1 ” emocionais — fragmentos de fé, carinho e boas intenções que...

Passarelas da Gaivota

  O horizonte da Gaivota — uma só , grafada assim mesmo, no singular — talvez porque, se existiu outra, nunca a vi. Todos os dias, amanhece como quem abre lentamente uma cortina, estendendo-se diante de nós, imenso e paciente, oferecendo nuances que mudam conforme o humor do sol. Há manhãs em que o mar se veste de vermelho intenso, quase dramático; em outras, deixa que a luz se dissolva suavemente nas areias do balneário, como se estivesse com preguiça de começar o dia. A cada passo, não consigo evitar que a memória me leve para muito antes de qualquer calçadão colorido. Imagino os “carijós”, donos primeiros destas terras, moldando sambaquis que hoje são testemunhas silenciosas de uma história que quase esquecemos. Depois vieram os “açorianos”, trazendo sotaques, crenças e o desejo de fincar raízes num território que ainda era mais natureza do que cidade. Mas o tempo, esse escultor incansável, não para. Hoje, o litoral se desenha em passarelas infinitas, cada uma com seu ri...

O Apagamento

  Dizem que ele morreu. Falam isso com naturalidade. Mas ninguém sabe ao certo. O que sabem, repetem. O que não sabem, inventam. Ele era figura constante nas vielas da periferia, desses que parecem conhecer cada buraco. Caminhava como quem desliza, sempre surgindo onde menos se esperava. Conversava com todos: com o dono do bar, com a senhora que vendia frutas na esquina, com os meninos que jogavam bola no campinho de terra. Tinha ideias demais para caber nas ruas estreitas que o moldaram. E então, um dia, sumiu. Não foi só ausência. Foi apagamento. Como se uma mão invisível tivesse passado pela cidade e varrido sua existência. Sem aviso, sem ruído, sem despedida. Escafedeu-se. Evaporou como se nunca tivesse existido. Nenhum corpo, nenhum rastro, nenhuma pista. Só o vazio. E o vazio, como sempre, foi preenchido por boatos. Nos becos, sussurravam que ele fugiu. Nos bares, juravam que ele foi silenciado. Nas redes, inventaram histórias tão elaboradas que pareciam roteiros de...

O Homem do Guarda‑Chuva Azul

  Anselmo chegava cedo à Praça da Catedral. Sentava-se sempre no mesmo banco, o guarda ‑ chuva azul aberto — n ã o contra a chuva, mas contra a “ tristeza que vinha de cima ” . Lia um jornal de 2003 como se fosse atual, dobrando as p á ginas com cuidado. Os pombos o cercavam; ele conversava com eles como velhos amigos. Rozeli passava cantando boleros, olhos fechados, dona de um palco imaginário. Anselmo nunca falava com ela, apenas escutava — e isso bastava para os dois. Até que Caíque apareceu, menino de onze anos, vendedor de chicletes e perguntas. Sentou-se ao lado de Anselmo e voltou todos os dias. Queria saber do guarda ‑ chuva, do jornal velho, da vida antiga que cheirava a bolo e sil ê ncio. Anselmo contou que j á dirigira ô nibus, que reconhecia passageiros pelo jeito de subir, e que uma vez quase perdeu o ponto final porque algu é m cantou “ Contigo Aprendi ” . Naquela tarde, Rozeli parou diante deles e cantou baixinho. Anselmo fechou os olhos. O jornal caiu de s...

O Antisséptico

  O “Antisséptico” cumpria bem sua missão: desinfetava cortes, eliminava bactérias, afastava infecções. Só não dava conta das outras dores — aquelas que não surgiam na pele, mas lá dentro, onde ninguém via.   Parecia ter sido criado por alguém que acreditava que personalidade se construía na base do grito. E o mais curioso é que, naquela época, os adultos aplicavam o tal “Antisséptico” com uma serenidade. Chegavam com o frasco vermelho como quem exibe um troféu. A gente entendia na hora: se ele aparecia, a situação ia piorar antes de melhorar.   O ritual era sempre o mesmo: examinar o machucado, garantir que “não vai doer” e, claro, provocar uma ardência capaz de fazer a gente reconsiderar todas as escolhas da vida.   E não era só o “Antisséptico”.   Crescemos cercados por remédios que hoje seriam proibidos — e sobrevivemos. Talvez por isso sejamos tão resistentes: fomos temperados no fogo daquele frasco vermelho.   Hoje, o “Antisséptico” não ar...

A Cortina

  A cortina, em sua forma mais simples, é apenas um pedaço de tecido. Um objeto doméstico, discreto, que cumpre a função prática de separar ambientes, controlar a luz, preservar a intimidade. Ela não julga, não escolhe lados, não cria conflitos. Apenas delimita. Fecha o que deve ser fechado, abre quando é preciso abrir. A cortina concreta é honesta: mostra exatamente o que é — uma fronteira móvel, reversível, que existe para proteger e organizar. Mas na sociedade humana, a cortina ganhou outra natureza. Tornou-se símbolo. Tornou-se arma. Tornou-se desculpa. Hoje, ergue-se uma cortina da discórdia em quase tudo: na política, nos esportes, nas crenças, nos debates mais banais. Não é feita de tecido, mas de palavras, preconceitos, medos, desinformação. E ao contrário da cortina real, essa não se abre com um simples puxar de mãos. Ela se fecha sozinha, se reforça, se torna mais espessa quanto mais se tenta atravessá-la. Criamos barreiras para separar o que consideramos puro do ...