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A Máquina de Escrever

 

 

Todos os dias, quando me sento diante do teclado do computador, sinto o eco distante da velha máquina de escrever que marcou o início da minha caminhada. É curioso como certas memórias não se apagam; apenas mudam de forma, como se fossem letras migrando de um papel amarelado para uma tela iluminada.

Era 1963, e eu ainda um menino de escola técnica, tentando descobrir que futuro cabia nas minhas mãos. A vida em casa era simples, apertada, mas nunca pequena. Minha mãe, lavadeira, carregava nos braços o peso das roupas e o peso dos sonhos que tinha para mim. Meu pai, consertador de sapatos, cuidava dos passos de tanta gente importante, enquanto sustentava os meus.

Naquele tempo, cada tostão tinha destino certo. E foi juntando tostões — aqueles que minha mãe economizava — que ela me matriculou no curso de datilografia, lá na escola profissionalizante do bairro. Eu ainda nem sabia, mas aquele gesto era uma espécie de empurrão silencioso para o mundo.

Lembro-me bem dos primeiros dias: eu, sentado diante da máquina, catando milhos no teclado, tropeçando nas teclas como quem aprende a caminhar. Aos poucos, os dedos foram ganhando confiança, velocidade, música. Cheguei aos 120 toques por minuto, aprovado com mérito. Naquele instante, percebi que não era apenas um curso — era uma porta aberta.

A datilografia me levou à tipografia, e a tipografia me levou à linotipo. E a linotipo, com seu cheiro de chumbo quente e seu ritmo quase industrial, me fez sentir que eu era parte de algo maior. Para um menino estudante, aquilo era extraordinário. Era como se cada letra que eu compunha tivesse o poder de construir o mundo.

Hoje, ainda diante de um teclado mais moderno, carrego em cada palavra o esforço da minha mãe, o cuidado como do meu pai e a alegria do menino que encontrou nas letras um caminho para a vida.

Escrevo, talvez, em homenagem. Não apenas à mãe que tive, mas à mentora que ela foi. À mulher que, com mãos calejadas, guiou meus primeiros rabiscos e me ensinou que dignidade também se escreve — linha por linha, dia após dia.

E assim sigo, cronista da minha própria história, dedilhando teclas como quem agradece.

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