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Procuração em Branco

    As esquinas do país transformaram-se em verdadeiros exércitos de bandeirolas. Uma fila interminável de rostos que jamais serão conhecidos, mas que se apresentam por meio de frases de efeito vazias de conteúdo. Minha vontade, como cidadão, é poder me dirigir a cada um desses pré-candidatos aos quais delego uma procuração assinada em branco, dando plenos poderes para representar meus anseios e expectativas de uma sociedade mais solidária e de leis mais justas em benefício de todos, sem distinção. Gostaria de perguntar-lhes o que fizeram ontem para merecer a confiança que pedem hoje. Gostaria de ouvir algo além dos slogans cuidadosamente ensaiados, das fotografias sorridentes e das promessas recicladas a cada eleição. Porque honestidade, trabalho e compromisso não deveriam ser promessas de campanha. Deveriam ser requisitos básicos para quem pretende ocupar um cargo público. E, depois de avaliar tudo, vejo apenas uma sucessão de rostos estampados em papel, disputando...

O Homem Só

    A cidade estava vazia naquela tarde. Uma brisa leve formava redemoinhos nas esquinas, levantando nuvens de poeira, jornais envelhecidos e pequenos restos de descartes que a vassoura do gari deixara escapar. O homem caminhava vagarosamente entre bancas de revistas fechadas e cavaletes de ambulantes abandonados. Estranhamente, naquela rua não havia sinal de viva alma. Era um deserto. De vez em quando, junto à sarjeta, um pequeno vulto se movia. Um rato. Nada mais. Nenhum carro, nenhuma conversa, nenhum telefone tocando. Apenas o som de seus próprios passos ecoando entre as fachadas silenciosas. Sem perceber, começou a acelerar o ritmo. Sua mente processava cada detalhe do ambiente ao redor. Algo estava errado. O silêncio não era apenas ausência de ruído; era uma presença inquietante, pesada, que parecia observá-lo de todos os cantos. Sentia-se só. Cada esquina que surgia diante de seus olhos trazia uma nova sensação de desconforto. Onde estavam todos? O que havia acontecid...

Carne Fake

    Hoje fui surpreendido por uma notícia que, embora bombástica, já não deveria causar espanto em tempos de evolução acelerada. Cientistas afirmam, com toda a segurança possível, que técnicas laboratoriais permitirão produzir carne a partir de proteína animal — sem abate, sem sangue, sem o ritual milenar que sempre acompanhou nossa alimentação. Sob o ponto de vista ético, há quem comemore. Para defensores da vida animal, é quase um alívio: enfim, carne sem morte. Mas o que me inquieta não é o fim do abate, e sim o começo de outra coisa. Como esse produto será introduzido no nosso cardápio diário? Que segurança teremos ao consumir alimentos processados em laboratório? Serão realmente saudáveis — mais saudáveis até do que os tradicionais? A verdade é que já convivemos há muito tempo com alimentos de origem duvidosa. Chocolate “sabor cacau”, leite que não é leite, embutidos que são uma mistura indecifrável de carnes e outros suprimentos. Pagamos caro por isso, muitas vez...

O Pequeno Mundo da Janela

    Todas as manhãs, ele ergue as folhas desgastadas da persiana, o retângulo da janela se abre como um pequeno mundo particular. É sempre o mesmo enquadramento, mas nunca a mesma história. Lá fora, a cidade desperta em sua coreografia repetida: o horizonte recortado pelas paredes frias dos prédios, árvores teimosas que insistem em existir entre camadas de concreto, o canto melancólico dos sabiás nas laranjeiras, as caturritas em suas algazarras matinais, e dezenas de janelas que se abrem para mais um dia — cada uma guardando vidas e segredos que jamais conhecerá. Ele fica ali, sentado diante da escrivaninha, as mãos repousadas sobre o teclado, a mente vagando por entre prédios, nuvens e lembranças. Busca inspiração como quem procura um sinal no céu. A rotina, às vezes pesada como chumbo, outras vezes leve como uma pluma que serpenteia perdida entre arbustos e sacadas, molda seus pensamentos. Entre silêncios e rabiscos, seus textos começam a nascer. Personagens surgem co...

Tudo é Possível, Quando o Impossível Acontece

    Ele havia sido demitido da gráfica: trabalhos rareando, funcionários demais, futuro nenhum. Juntou seus pertences — uma régua, lápis, papéis e um livro de Camões com folhas soltas —, objetos que guardava na gaveta da escrivaninha. Despediu-se dos colegas e enfrentou a tarde cinza da cidadezinha do interior. Ao dobrar a esquina, deu de frente com a placa luminosa da cafeteria. Entrou pela porta giratória e sentou-se à mesa de tampo de mármore. A garçonete loira de sempre anotou o pedido: um expresso, um copo d’água e um pastel frio da manhã. Comeu como quem encerra um capítulo. Do bolso puído da calça de brim retirou uma nota amassada, pagou a conta, respirou fundo e partiu sem rumo. Restava-lhe apenas a incerteza. Sem trabalho, sem amores, sem fé — caminhou até a pequena ponte que ligava a cidade ao nada. Parou no meio, suspirou. Ao erguer o olhar, viu uma menina tentando salvar um barquinho de papel levado pela correnteza. Ele se aproximou e, num gesto rápido, r...

Último Beijo

    Foi um encontro casual, desses que acontecem sem aviso. Uma troca de olhar, um sorriso tímido, e a vida seguiu seu curso. Ele ficou extasiado observando a imagem dela se dissolver na retina. Era a primeira vez que a via, e algo o desconcertou de imediato, como se uma peça interna tivesse se movido sem permissão. Os dias passaram. De vez em quando, lá estava ela: mesmo olhar, mesmo sorriso, nenhuma palavra. Havia algo de mágico naquela troca silenciosa, embora ele não imaginasse o tamanho do que estava por acontecer. Até que, num dia qualquer, tomado por uma coragem súbita e um fôlego descompassado, aproximou-se. — Oi… A resposta veio instantânea: — Oi! Qual é teu nome? Ele, num misto de encantamento e insegurança, balbuciou: — Eros. Ela sorriu, curiosa e irônica: — Eros? — Sim. E o seu? — Afrodite. A gargalhada ecoou ao redor dos dois, e assim começou uma amizade que logo se transformou em amor. Os anos passaram, e aquela fagulha que explodi...

Ego – O Eu de Cada Um

  O ego é um daqueles habitantes silenciosos da nossa mente: não paga aluguel, mas ocupa espaço; não faz barulho, mas interfere em tudo. Na psicologia, dizem que ele é o mediador — o ponto de equilíbrio entre nossos desejos internos, as regras da sociedade e a realidade que insiste em nos lembrar que o mundo não gira ao nosso redor. É ele que nos dá a noção de identidade, personalidade, esse “eu” que carregamos como assinatura. Eu sei que estou mexendo numa área da qual não sou especialista. Mas, como indivíduo disponível para ser analisado, me permito observar esse personagem que vive dentro de mim — e dentro de todos nós. No meu ambiente familiar, há quem entenda disso com mais propriedade; ainda assim, arrisco minhas próprias conclusões. O ego, esse substantivo masculino tão pequeno na gramática e tão enorme na vida, muitas vezes atropela nosso destino. Faz isso por arrogância, por orgulho excessivo, por aquela mania de controle que nos prende mais do que nos protege. Outr...

O Lado Invisível de Gramado

Estive há poucos dias em Gramado. Retornar a essa cidade glamourosa é sempre uma experiência incrível. Sua aparência europeia, com construções que remetem às regiões italianas e germânicas — ainda que muitas outras etnias também tenham deixado sua marca por ali — sempre me encantou profundamente. Mas desta vez resolvemos inovar. Eu e minha companheira de toda a vida organizamos um roteiro pela Gramado invisível, aquela que não aparece nas propagandas nem nas filas intermináveis dos pontos turísticos tradicionais. E foi uma surpresa arrebatadora. Caminhamos por estradas rurais de paisagens deslumbrantes, onde o burburinho da cidade grande simplesmente não existe. Visitamos lugares que extasiam a retina: cascatas escondidas, vales silenciosos, paredões que parecem não ter fim, rios que serpenteiam entre matas e pequenas propriedades. Uma vida rural pulsante, ali, coladinha à Rua Coberta — quase inacreditável. Nunca havíamos imaginado que Gramado oferecesse algo além das atrações milimetr...

Quando o Jogo Murcha

    O Gre ‑ Nal n ã o perde intensidade por falta de vontade. Perde porque o desempenho dos dois times anda t ã o irregular com as mudan ç as dos projetos das dire çõ es; se é que existe, cada ano troca t é cnico, filosofia, contrata çõ es, discurso … nada amadurece. Os elencos são montados por urgência, não por ideia — jogadores chegam para “tapar buraco”, mas o buraco continua lá, firme, resiliente, quase heróico. A política interna é tão presente que às vezes parece que o clube joga com doze: onze em campo e um conselheiro soprando no cangote. O torcedor olha e não sabe se o time tenta atacar, defender ou apenas cumprir tabela. E a base, coitada, virou quase lenda: todo mundo diz que existe, mas ninguém vê. Com esse cenário, o clássico sofre. Porque Grenal é termômetro — e ultimamente anda marcando febre baixa. Quando os clubes estão fortes, o jogo explode, vira caos, vira ópera, vira guerra santa. Quando estão fracos, o Grenal murcha, desce a ladeira, vira aque...

Época de Eleição

    Hoje vou abordar um tema sensível. A disputa eleitoral chegou novamente e, para ser franco, insistir no óbvio já não faz sentido. As cartas estão expostas, e nenhuma alternativa oferece um projeto de governo consistente. É a mesma engrenagem desgastada que gira desde 15 de novembro de 1889. Naquele dia, tínhamos um marechal — Deodoro da Fonseca — à frente do golpe militar que depôs Dom Pedro II e proclamou a República. A história seguiu seu curso, mas o país nunca mais foi o mesmo. Iniciamos outra caminhada, marcada por lutas, discórdias, ideologias, suicídios e cassações. Entre tropeços e remendos, fomos nos acostumando a viver entre o futebol, o samba, a cachaça e certas práticas menos confessáveis. E, se o assunto for polêmica, o terreno é tão amplo quanto um campo de futebol: aqui, derrota nunca é aceita; se ela veio, é porque alguma coisa — inevitavelmente — estava errada. Mas o que pretendo dizer é simples: apesar da instituição do voto secreto — que de secreto tem...