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A Flauta que Desafinou

 

A flauta sempre foi a alma do GRE-NAL. Não apenas um instrumento de provocação, mas um ritual, quase um patrimônio cultural do futebol gaúcho.

Quando o Grêmio vencia, a flauta vinha leve, debochada, certeira. Quando perdia, vinha do outro lado, afiada como navalha. Era assim que se mantinha viva a chama do clássico: na ironia, no exagero, na graça de rir do rival — e de si mesmo.

Mas desta vez, algo mudou. O Grêmio venceu, manteve viva a fama de “Imortal”, ergueu o título… e, ainda assim, a flauta não tocou como deveria. Não teve aquele sopro cheio de malícia, aquela vibração que faz o torcedor inflar o peito e soltar o sorriso torto. A vitória veio, mas a alma do GRE-NAL ficou presa em algum lugar entre as linhas traçadas pelo VAR.

O clássico, que sempre foi decidido no grito, no suor, no erro humano que alimentava histórias por décadas, agora parece refém de revisões intermináveis, congelamentos de imagem e debates geométricos. A emoção virou cálculo. A rivalidade virou protocolo. E a flauta, coitada, perdeu o ritmo.

Não é que o título não valha. Vale, claro. Mas falta algo. Falta aquela centelha que fazia o torcedor sair do estádio ou da frente da TV já preparando a corneta para o dia seguinte. Falta o sabor da vitória conquistada no campo, não na cabine. Falta o GRE-NAL raiz, aquele que não precisava de linhas para saber quem era melhor naquele dia.

Por isso, hoje, mesmo com o troféu na mão, confesso minha desilusão. A flauta está aqui, mas desafinada. Sem ironia, sem brilho, sem aquela alegria travessa que sempre acompanhou as grandes vitórias sobre o rival. O clássico mudou — e talvez nós também tenhamos mudado com ele.

Resta a esperança de que um dia o GRE-NAL volte a ser decidido onde sempre pertenceu: no gramado, no peito e na raça. E que a flauta, enfim, recupere seu sopro.

 

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