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O Número Que Me Persegue

 

Sempre me achei um sujeito racional. Daqueles que dizem “não acredito em azar” com a mesma convicção de quem diz “só vou comer um pedacinho de chocolate”. 

Mas basta o calendário anunciar uma sexta-feira 13 para minha lógica científica dar lugar a um comportamento… digamos… preventivo.

Não é medo. É prudência. É diferente.

Desde pequeno, convivi com um folclore doméstico que faria inveja a qualquer roteirista de filmes de terror. Minha mãe, por exemplo, tinha um radar especial para gatos pretos. Se um cruzasse o caminho, ela não só fazia o sinal da cruz como também me puxava pelo braço, como se o felino fosse um agente secreto do azar enviado para nos sabotar.

E eu, claro, fingia que não ligava. Mas esperava o gato passar bem longe antes de continuar andando. Por via das dúvidas.

As escadas eram outro capítulo. Passar por baixo? Nem pensar. Minha família tratava isso como se fosse uma espécie de portal para sete anos de azar. E abrir guarda-chuva dentro de casa? Só se você quisesse ser expulso do ambiente com a mesma rapidez de quem derruba café na toalha nova da sala.

O mais curioso é que, mesmo depois de adulto, com diploma, internet e acesso ilimitado a explicações científicas, continuo respeitando certas tradições. Não por acreditar — mas porque o universo é grande, misterioso e, sinceramente, não custa nada colaborar.

Na sexta-feira 13, por exemplo, eu acordo como quem teme que o próprio travesseiro esteja tramando algo. Levanto-me devagar, com a mesma cautela de um personagem de desenho animado que sabe que pode haver uma bigorna pendurada no teto. Não troco lâmpada — não quero que ela exploda em faíscas dramáticas. Não mexo com eletricidade, porque nesse dia até o interruptor parece olhar para mim com cara de “tenta a sorte, vai”.

E o número 13… ah, esse tem personalidade. Ele não precisa fazer nada. Basta aparecer. Ele chega no calendário como quem diz: “E aí, preparado?” E eu respondo: “Claro que sim”, enquanto escondo o martelo, desligo o ferro e caminho pela casa como se estivesse carregando um vaso de cristal.

No fundo, acho que o 13 não dá azar. Ele só revela quem a gente realmente é: um bando de adultos que cresceu ouvindo histórias e, mesmo jurando que não acredita, ainda dá aquela olhadinha de canto de olho quando o gato preto aparece.

Porque, convenhamos, rir das superstições é fácil. Difícil é desafiar o destino abrindo um guarda-chuva dentro de casa numa sexta-feira 13. Aí já é pedir para o universo testar sua coragem — e eu, sinceramente, prefiro não provocar.

 

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